Recentemente li uma crônica do Contardo Calligaris que diz que a gente viaja para saber quem somos fora de onde sempre estivemos.
Uma boa viagem seria aquela na qual descobrimos coisas boa, úteis, deliciosas a nosso respeito. Saímos de nós para sermos mais nós mesmos. Quem nunca viajou e, durante uma viagem, percebeu coisas sobre si que nunca tinha suspeitado? Mas como é que eu não sabia que a minha fruta preferida era Cupuaçu? Soube lá, em Cumuruxatiba. Descobri meu coração de sambista e minha ginga multada uma noite dessas, no Beco do Rato, em plena Lapa. Soube que a minha missão de vida era a busca do Tiramisu perfeito numa minúscula travessinha de Roma, num restaurante mais minúsculo ainda, onde a meu lado um amigo pedia para o outro - esse aos prantos - o doce que eu para sempre comeria lá, independente de onde estivesse. Tive certeza de que meu coração ia sarar andando de chinelos pela ruas irregulares de Itacaré. Percebi que o amor tinha acabado em Paris. E foi andando por Buenos Aires que descobri que podia estar só e ser uma ótima companhia de mim mesma.
Ainda segundo CC, a viagem que não merece seguir é aquela que nos leva a um lugar que não nos faz bem, em que descobrimos o pior de nós. Estar em um lugar de livre e espontânea vontade não pode ser para se sentir mal.
Assim como as viagens, segundo ele, são os relacionamentos e os amores. Amar é sair de si para estar mais em si. O amor que vale a pena é aquele em que junto do outro somos o melhor de nós, nos descobrimos capazes de coisas incríveis, de rir por exemplo, estar em paz, querer o bem, ser desejado, crescer, apoiar, ser generoso. O que não vale? Por óbvio aqueles amores que nos fazem ser o pior de nós, dependentes, opressores, humilhados, tristes, medíocres, prescidíveis, abandonados, controladores.
Mas independentemente da viagem ter sido péssima, e de termos voltado mais cedo para casa - e isto não dis o Calligaris - não voltamos sem nada na bagagem. Há coisas a nosso respeito que não teríamos descoberto ficando no seguro escuro do nosso quarto.
Tholl, Imagem e Sonho ou Yes, nós também temos um circo lindo
Quem já viu, vai novamente com certeza. A dica é para quem ainda não foi ver Tholl, um grupo do novo circo, tipo Cirque du Soleil, gaúcho e também com diretrizes sociais. O espetáculo é um deslumbre (eu fui à ultima temporada), daqueles de sair levinho e feliz. As crianças adoram, a gente se ilumina. Os figurinos são um desbunde, a produção é um capricho só. Eu não esperava que tivéssemos esse tipo de circo no Brasil. Não vale perder. A temporada é de 22 a 27, no Theatro São Pedro.
Bem mais ou menos essa interpretação aí. Já ouvi melhor, mais linda, mais emocionante.
Mas pronto. É só pra me lembrar da música, porque a outra interpretação não foi gravada.
É uma das músicas que eu cito na coluna abaixo, publicada hoje na Paradoxo.
Quero agradecer a companhia da Yarinha, que de castigo por ser a minha mais antiga leitora, desde a pedra lascada no Have a Sit, ganhou a companhia desta capenga que vos fala, histérica, descompensada, louca, aos berros, um show inteirinho. Mas que tava bão tava, né Yarinha?
O show. Bom, ainda que tivesse sido médio menos eu teria gostado. Porque eu gosto dele e pronto. Então a menos que aparecesse outro no lugar, eu teria gostado de qualquer jeito, mas... Ai. Sim, eu sei. Isto não é uma crítica isenta, mas vamos lá, qual crítica é?
O fato é que em dezembro de 2006 eu ouvi o CD 12 Segundos de Oscuridad, um CD melancólico e genial, triste pra caramba, que falava de solidão e do encontro com ela, nós que nunca soubemos como estar sós (Soledad), de que a escuridão vale mais para nos guiarmos do que a própria luz, que só há uma maneira de caminhar: um pé depois do outro (12 segundos de oscuridad). Também me falou da vida ser muito mais complexa do que parece, de final de relacionamento onde não se sabe se a dor nos valerá de alguma coisa (La vida es más compleja do que parece), de amores transoeânicos aos quais nem sempre se tem acesso (Transoceânica), do mundo que se conecta e não nos faz menos sós por isso (Disneylândia), das dúvidas com as quais a gente sempre conviveu e se alimentou, mas das quais se quer um recesso (Hermana Duda), de lágrimas que vão ao céu e nos voltam aos olhos pelo mar, de que - por mais que não pareça - o coração vai sarar para poder voltar a partir-se, de que a morte também é uma lei de vida (Sanar). Então foi ele que estava lá, comigo, nas tardes daquele final de ano em que eu podia ter escrito todas essas músicas, se fosse genial como ele, tentando me reerguer, tentando me achar, tentando apresentar as minhas credenciais à solidão e fazer com ela uma boa dupla. Éramos dois, eu e ele, a nos entendermos muito bem.
Foi destes dias que ele me falou ontem à noite, só que me disse mais coisas além destas. Me disse que a brisa do mar nos leva para casa, mesmo que gente nem saiba onde fica a nossa casa (Un país con un nombre de un rio), que uma vida vale tanto quanto um sol e que não deixaremos rastros porque somos só poeira de estrelas (Polvo de Estrellas), que às vezes basta muito pouco (Guitarra y vos). Também me disse que o amor que a gente deu não se perde e um dia volta, transformado noutro amor que a gente pode receber e reviver, porque nada se perde, Todo se transforma. Teve a ousadia de tomar emprestada a música mais bonita de Mr. Leonard Cohen para me dizer que o amor pode ser tão bonito quanto um quadro de Chagall (Dance me to the end of love) e que uma hora, mesmo a gente sendo só um dos pólos, pode-se achar um doce magnetismo de duas cargas buscando o mesmo (Deseo), que se pode perder a noção de onde termina um corpo e começa o céu e que está tudo bem se duvidamos do coração, perdemos a medida e penduramos a armadura (Fusión). Mas o melhor de tudo - e isso me disse Jorge no final do show, cantando só pra mim - claro - é que não deve-se acreditar na eternidade das batalhas, nem nas receitas de felicidade, que minha moeda já está girando no ar e agora será o que será (Sea).
Da participação do Vitor Ramil eu nem precisaria falar, porque eu já elogiei o moço tudo que deu aqui. Só registro de Jorge Letras Geniais Drexler disse que Vitor é o compositor mais talentoso da sua - deles - geração. Digamos que há empate técnico entre os dois. Basta ouvir a recente Astronauta Lírico - que pelo nome chega a dar calafrios, mas é das coisas mais lindas já escritas e mais bem cantadas ever.
De alma lavada, alvejada, enxagüada, engomada, passada, restaurada, límpida e translumbrante,
A vida é muito boa comigo. Manda umas gentes pra lembrar que eu não tô sozinha. E não estar sozinha, para mim, é saber que tem gente que me entende, que se parece comigo, que sabe do que eu estou falando. Melhor ainda é quando elas dizem o que eu queria dizer.
Há dias eu andava indignada com isso. Com a falta de argumento ou, pior, com o mau caratismo de quem sabe como a coisa funciona e quer se fazer de galinha morta para andar de caminhonete. Não estou dizendo que o senhor ministro tenha ou não tenha boas intenções. Estou dizendo que, ou se discute o embasamento técnico da decisão, ou a discussão descamba pro bobo, chato, feio. Quem está aí tem condições para isso. Por que não faz? Apesar de não ser tão fácil, é o único meio de contestar o que ocorreu sem desmoralizar o Poder Judiciário - como já se fez com o Legislativo e com o Executivo. E se vierem me perguntar o que tem isso, eu digo: alguma instituição tem que sobrar para por ordem no galinheiro. Se não forem as previstas na Constituição, vão ser outras. E depois não venham chorar quando entregarem os seus filhos para o pessoal do morro dar um corretivo.
«Estás conmigo,
Estamos cantando a la sombra de nuestra parra
Una canción que dice que uno sólo conserva lo que no amarra.
Y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra.
Hay tantas cosas
Yo sólo preciso dos:
Mi guitarra y vos
Mi guitarra y vos.»
A dica é Quinta Coluna: 101 crônicas, Contardo Calligaris.
Já falei do livro aqui e agora que terminei de lê-lo, vou começar a ler de novo.
Há quatro colunas sobre vergonha e culpa que são um primor. Sem falar da mais bonita de todas: Ilhas Desconhecidas. Lindo, lindo, lindo.
E é com muito orgulho e satisfação que a moça aqui informa que CONSEGUIU ingresso para a sessão extra do shô do Jorge Maravilhoso Drexler no domingo. Monsieur Pai foi pra fila às 7:30 da manhã e saiu de lá agarrado nos meus ingressinhos três horas depois. Porque não basta ser pai, vocês sabem.
A família penhorada agradece os e-mails de solidariedade e motivação.