Botero
As lembranças de ontem associaram-se a papos do fim de semana e eu fiquei pensando na grande bosta que é a adolescência, ainda mais para as meninas que não se enquadram no padrão. Entenda-se por
“padrão” o físico, o comportamental, o familiar, enfim, o padrãozaço, o standard, o controle que qualidade ISO 14000 das meninas fabricadas em linhas de montagens fordistas (sim, estou falando das meninas) que são magras, têm cabelos longos e lisos (preferencialmente loiros com luzes), seios tamanho médio-médio, usam aparelho ortodôntico com elásticos coloridos, têm celular com penduricalho Hello Kitty, usam calça jeans de marca (não sei qual é a hype agora, é qual? Gang? Diesel?), passam férias na praia, comemoram 15 anos na Disney ou em algum outro lugar no exterior muito mais hype e mais cool porque
eu-não-sou-mais-criança-e-Disney-já-era, têm uma tribo (emo, gótico, techno, funk), usam cosméticos anti-acne que custam dois salários mínimos, freqüentam salão de belza semanalmente.
Aos 16, além do mais, por mais fora do padrão que você seja, você nem pode usar a roupa que te favorece. Primeiro porque você não tem a grana pra comprar a roupa que te favorece, segundo porque no meio de 436 pessoas de 16 anos de calça jeans, tênis, blusinha justa, creia, você não vai querer ser
a única de vestidim solto que não marca o culote. Você PRECISA de uma turma, certo? Mas se você não foi produzida na fila fordista, você NÃO TEM uma turma. Claro, pode ser que você se junte com os freak, mas se você é um freak com D.O.C., vai ser você e você contra os hormônios, a acne, o coração partido, a compulsão alimentar, os pais, os estudos, o futuro, o mundo.
Eu fui uma dessas meninas. Morando com os avós pra poder estudar, 20 quilos acima do peso de qualquer uma das minhas colegas, com espinhas, sem um tostão a mais do que o estritamente necessário para comprar as apostilas da escola federal onde eu estudava, com um pacto de não diversão e enclausuramento (condição dos avós para adotarem uma adolescente em casa) dos 15 aos quase 18. Pais a centenas de quilômetros, namoradinho que me botava chifre idem. Restavam os livros e os diários, a poesia, o choro convulsivo, alguns LP’s, o rádio, cadernos, apostilas, a química orgânica, as operações unitárias. E foi foda, mosfilhos, foi realmente foda.
Mas pronto, passa, e um dia a gente tem trinta, e os livros e os diários e as apostilas e não ter nada além de estudar pra fazer fazem alguma diferença na hora de comprar a roupa que nos favorece ou ajuda muito a achar a turma que a gente achou que não existia, mas existe. Pelo menos isso.
Kelly - SP comentou:
É uma fase bem difícil mesmo. Passei apuros tb. Não me enquadrava em nada, Ticcia.Hoje é bem bom encontrar alguns antigos colegas e eles se surpreenderem qdo. vc fala que vc é aquela lá, aquela mesma que eles ficavam tirando uma e tal.
O mundo dá voltas. Sempre.
às 09:22 de 25.07.2006