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Sorriso

Sob o fino manto translúcido de carne (nem tão) fresca e pele (ainda um pouco) luzidia repousa tudo aquilo que sou e não se vê. O sorriso até é sincero, porque nada branco, traindo os anos de vida, cafés em madrugadas de trabalho, tabaco festivo ou depressivo, vinhos tintos de preço módico e bruxismo renitente. Um sorriso conquistado à duras penas de aparelhos ordotônticos com pagamentos paternos mensais em tempos de URV diária e que ainda guarda a assimetria de quem tem um rosto desparelho e arcadas dentárias cubistas. Um sorriso correto e mesmo assim torto, feito para ser exibido após um bofetão na cara, qual Isabella Rossellini em Blue Velvet.

Os sorrisos talvez sejam o que temos de mais verdadeiro. Eles expõem os ossos que jazem sustentando todo esse barulhento aparato de carne e desejo que nos faz humanos. Que ficam guardados lá, por baixo do que está por baixo, camadas e camadas de tecidos superelaborados e de todas as toxinas que o stress de uma vida cada vez mais taylorista nos impõe. Que contam, em suas múltiplas anomalias e desvios, sobre suas dimensões herdadas, neuroses e fugas, sobre tudo o que lhe veio da família e todas as invisíveis gaiolas de tensão e infelicidade que você escolheu para si.

Correm livre por canais cuja existência não concebemos todas as coisas nem tão belas e um bocado sujas que sentimos, pensamos, experimentamos, vivemos, cogitamos. A raiva do abandono da mãe. A inveja da amiga mais bonita. A cobiça pelo marido da colega. O curioso sentimento de injustiçamento perante o sucesso do outro. A vontade de esbofetear o recepcionista. O desejo de atropelar a velhinha com o andador de metal na faixa de segurança. A irritação com o filho bebê que não deixa ninguém dormir há dois dias seguidos. A vontade de esganar a filha adolescente desaforada e respondona, apertar aquele pescocinho presunçoso até os olhos esbugalharem e o rosto passar do vermelho ao violáceo. O ímpeto de destruir o trabalho exposto. O impulso de chutar o mendigo que pede moeda na sinaleira. O ódio animalesco e inexplicável pela torcida adversária. Sim, é um tigre. Faminto. Furioso. Não basta qualquer punição, muito menos punição justa: a justiça passa longe. É preciso a dor do outro rutilando no pânico dos olhos dele, é preciso que ele perca a alma e que morra e renasça mil vezes, somente para sofrer mais e mais e mais numa roda sem fim.

É preciso conhecer esse tigre. O seu, o meu. O nosso. Ouvir seu rugido, seu queixume, sua tristeza. Olhar sem medo nos olhos da fera. Pois, se a fera é sua, se você é a própria fera, como poderia ela devorá-lo? Dê a mão ao tigre. Perceba-o. Conheça-o. Pode ser que, como o leão da fábula, ele tenha somente um espinho na pata. Tigres são puro instinto, tigres não pensam. Ajude-o a encontrar algum caminho, alguma serenidade, um lugar e condição onde possa usar todo esse ímpeto para brincar com outros tigres, para rolar na relva e para levá-lo veloz e feliz para aquele lugar onde você quer estar.

Pois o tigre também é um gato. Às vezes, é um gato que ri.
Coluna: Criada de Madame
por Sua Criada, às 00:28 de 23.10.2006

Gabi, a outra comentou:

Criada. Hoje tive demonstrações de que o meu tigre precisa de um rumo. E meu tigre precisa entender seu instinto quase, eu disse quase, assassino.
Tubos e conexões problemáticos.
Porque madame e criada sempre acertam em cheio. Não consigo nem dizer a magnitude desse acerto.
Mil fichinhas caindo, diria Jo.
Gabi, a outra
às 02:38 de 23.10.2006

Ana Paula Manga comentou:

Sabe quando vc sente que seu eu mais fundo alcança o mais fundo de um outro eu? Eu te leio assim. Me confundindo com as pessoas que vc carrega. E me faz um bem danado desorganizar o mundo externo e organizar o interno ao ler o seu blog. A vida faz sentido. Aqui dentro e só, é verdade. Mas o que importa? Faz sentido.

Se pudesse, por gratidão, levaria seu tigre pra rola em alguma relva.
Ana Paula Manga
às 08:48 de 23.10.2006

Lia comentou:

Bela metáfora!
Lia
às 09:41 de 23.10.2006

F. Ramos comentou:

Texto para pensar, para rever conceitos! Adorei!
F. Ramos
às 09:42 de 23.10.2006

AnaBettaBlue comentou:

bingo.
AnaBettaBlue
às 17:30 de 23.10.2006

Fabíola comentou:

Meaurrrrrrrrrroar.
Fabíola
às 22:23 de 23.10.2006
ver tabela de smileys: aqui