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A dor de Clarice

Clarice me dói toda, me dói as mãos, os pés, os fios do cabelo sobre a testa, o espaço entre a unha e a carne na ponta dos dedos. Clarice me dói nos espaços do corpo que descubro que existem quando a leio, uns lugares secretos, insondáveis, que só denunciam sua existência aguda quando soa a palavra perfeita, quando a frase termina da última - e melhor - maneira que eu poderia imaginar. Clarice é um susto, é um disparate e uma bênção. Leio-a quase com raiva, quase com náusea, quase com gozo - como fazemos as coisas quando nos apaixonamos. Lê-la pela primeira vez é o maior milagre de que me recordo: a linguagem subitamente ganhara vida, me pegara pelos punhos, chacoalhara, me esbofeteara a face e depois me dera um beijo. Pela primeira vez a linguagem era outra coisa, uma coisa que doía, doía e fervilhava, era violenta, brutal e, por mais inteligente e perspicaz que eu fosse, por mais sensível e humana que eu viesse a me tornar, me surpreenderia caçoando de todas as obviedades e traria à tona coisas de mim que eu ignorava e ignoro. Clarice me dói sempre, eu a leio com o cuidado de quem se move entre navalhas, completamente vulnerável, nua e à deriva, exposta ao maior perigo de todos - ao perigo de mim mesma.


Tentação (Clarice Lispector, in A Legião Estrangeira)

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.



Beijo para a Melina, que me deu um texto do Caio, que me trouxe de volta à Clarice.
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 00:01 de 18.06.2010

Lou comentou:

Ô, queridíssima... eu mereço a forca, eletrocutação e derivados, pois não consigo gostar de Clarice, de poesia, de certos livros e filmes cultuados...é... beijos e feliz casório. Vc me parece ser gente do bem.
Lou
às 01:00 de 18.06.2010

Ticcia comentou:

Lou, não merece castigo. Castigo merece quem mente que gosta da dita unanimidade, só para fazer tipo. Beijo.
Ticcia
às 12:26 de 18.06.2010

Bia Francisco comentou:

Ticcia, esse texto foi a primeira coisa de Clarice Lispector que li. Estava num livro de Português da quarta, quinta, sexta série, nem lembro mais (faz tempo...)
Tinha uma figura duma menina andando pela calçada... Lembro que eu li, depois li de novo e depois mais algumas vezes; sempre imaginando como seria a vida dessa menina. Encantei.
E anos, muitos anos depois encontro esse texto aqui. Viajei!
Obrigada!
Bia Francisco
às 08:38 de 29.06.2010
ver tabela de smileys: aqui