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Conspiração



Salvador Dalí
Eu acredito piamente que deve haver uma conspiração quântica para fazer com que coisas desaparecidas há muito, muito tempo, reapareçam cruelmente num determinado momento, do nada, em lugares que a gente mexeu todos os dias nos últimos anos e nunca estiveram lá, com a mais absoluta certeza. Mas aí um belo dia sabe-se lá porquê (aqui deve entrar uma equação tão cheia de variáveis que seria necessário um supercomputador que faria os da previsão meteorológica parecerem relógios-calculadora) reaparecem, plim, para nos darem um enorme murro no meio da cara. Just like that. E aí primeiro a gente sente o sangue nos fugir das faces e das mãos e direcionar-se T.O.D.O para o estômago, faltam forças, falta chão, falta profundidade em tudo que nos cerca, o mundo vai ficando progressivamente monocromático e contrastante até aquele ponto que antecede o desmaio. Aí, se a gente for forte o suficiente, consegue achar entre as coisas que se movem como se derretessem tal como uma tela do Dalí, um lugar para sentar e evitar se esborrachar no chão feito um saco de batatas. Feito isso, a cabeça está girando, mas só a parte de dentro dela. A gente tenta obter um referencialzinho que seja e tudo na volta desaparece. Só AQUILO existe. Aquilo e tudo que aquilo trouxe de volta, como se aberto estivesse um ralo para outra dimensão do tempo e do espaço que acaba de lhe sugar pra dentro. E então você está lá, de volta lá, naquele dia, naquela hora que você julgava perdidos para sempre, com aquela luz e aqueles cheiros, com os rostos das pessoas vívidos e perfeitos, as vozes claras, você de volta naquele seu corpo, dentro daquela roupa, daqueles sapatos, ostentando aquele sorriso que não doía, de posse daqueles olhos brilhantes cheio de inocência imbecil, com o peito rebentando de felicidade e certezas tão absolutas quanto cegas, coisas essas que você só saberia muito mais tarde, muito mais tarde, quando numa tarde de sol você abrisse uma gaveta que você tinha aberto incólume todos os dias até então e encontrasse aquele pequeno pedaço de você. Perdido. Para sempre.

Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 16:37 de 21.01.2009

Srta. Rosa comentou:

Que texto mais lindo Ticcia, eu sou tão esculhambada que diria que a culpa é dos duendes...
besitos,
Srta. Rosa
às 18:53 de 21.01.2009

deia comentou:

Nossa... sabe que nao sei se isso é bom ou ruim... (nao o texto, ele é perfeito!)
deia
às 21:50 de 21.01.2009

TF comentou:

Ui, palmas, TF.
TF
às 22:38 de 21.01.2009

Ninguem em em especial... comentou:

Sentimentos perdidos..... Amores que voltam.... Essas são as dores que mais doem...
Ninguem em em especial...
às 23:07 de 21.01.2009

Le POA comentou:

Uau, que texto lindo como todos que vc escreve...
Le POA
às 23:16 de 22.01.2009

Mariucha comentou:

Quanta realidade nisso tudo!
Amei, como sempre...
bjos
Mariucha
às 00:20 de 23.01.2009

Gel comentou:

É o que me faz ler e REler seus poemas...a sensação de as coisas não estão tão perdidas; estão lá no fundo de mim e aos lê-los trago-as de volta...
("...Sigo a vida com a cabeça erguida, trago no corpo feridas que com o tempo fingem parar de doer.Mas quando olho pra você, os seus olhos ainda me iludem..."
A propósito muito, muito,muito,muito obrigada por "me apresentar" "Antes do amanhecer" e "Antes do pôr-do-sol"; tornaram-se os filmes da minha vida. Tudo quanto viví, acredito, anseio, brigo...tudo está lá, de um jeito que nunca soube dizer.
Reverência.
Gel
às 12:36 de 23.01.2009
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