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Finalmente

Há dias em que a vida dói mais, em que custa mais viver. Há dias em que finalmente a força falta e desaba-se sobre si mesmo, implode-se a si, derruem-se os alicerces, cedem as bases, dobram-se os joelhos, apequenam-se as mãos, encolhem-se os ombros, murcham-se os olhos, paralisam-se as pernas. Há dias em que as pernas já não se conseguem pôr-se a andar, não respondem, exaustas, trôpegas, inertes, não se firmam, não se prestam a mais nada ainda que, ainda como, ainda se. Há dias em que basta de desculpas, justificativas, bons modos, intenções, vontade e ânimo. Há dias em que o mundo te olha e pergunta as mesmas perguntas de sempre e não sabe-se mais nada daquilo, esqueceu-se da fórmula, do verbo, do jeito. Não se tem mais jeito, e se algum dia jeito houve, não se sabe. Há dias que se regride, diminui-se, encolhe-se, mingüa-se, involui-se até que só se sente o desamparo e o terror, até que só se resta a si e a solidão de si mesmo, branca, láctea, primeva e a cara contra o chão frio. Há dias que esquecemos nossa armadura, casca, carapaça. Há dias em que não nos sobra nem um band-aid. Há dias que a dor é crua, despida, clara e evidente como a boca arreganhada de um bicho que já nos arrancou um grande pedaço. Há dias inconsoláveis e tristes como poucos, em que esquecemos dos treinamentos de prevenção de incêndio, alagamento, terremoto, tsunami, onde não conseguimos lembrar para que lado diabos ficava a saída de emergência, nem o que fazer em caso de acidente. Há dias que vêm sem barra anti-pânico, sem freio de mão, sem alavanca de segurança. Há dias em que todas as coisas das quais não se podia lembrar se reúnem em segredo com tudo de pior que aconteceu e resolvem tomar a vida de assalto. Há dias sem subterfúgios, sem rotas de fuga, sem bote salva-vidas, sem tiro de misericórdia, sem último pedido, sem extrema unção. Há dias em que lágrimas não bastam, soluços não bastam, urros não bastam, só sobra o medo, a tristeza, a decepção, o desconsolo e um enorme e plúmbeo cansaço junto com a sensação inderrogável de fracasso. Há dias que, olha, felizmente acabam.

Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 00:50 de 08.12.2008

Patricia do Rio comentou:

Ti, tô eu aqui sem conseguir dormir, justamente num desses dias (que já dura mais de um dia). Aí vou pro computador pra tentar distrair e dou de cara com o seu texto tão exato. Mais um dos milagres da internet.
Patricia do Rio
às 01:36 de 08.12.2008

Simone Teixeira comentou:

Bom ler isso e saber que o dia de hoje vai acabar. Porque tuas palavras me caíram como uma luva nessa segunda-feira de sol lá fora e tempestade aqui dentro...

Bjs, querida Ticcia.

Si
Simone Teixeira
às 19:35 de 08.12.2008

Debora-POA comentou:

Puxa!!! Dia de ontem realmente estava pesado (para dizer o minimo!)!! Mas ja acabou!!! Gracias!!!
Bjsss
Debora-POA
às 08:28 de 09.12.2008

coca comentou:

Eu costumo dizer ... "há dias em que de noite é assim mesmo..."
coca
às 21:10 de 09.12.2008

Carlos comentou:

Há dias assim mesmo. Mas terminam. O o dia seguinte é sempre melhor. Muito melhor. e só por isso estes dias são bons. Pelo dia seguinte.
Beijos,
Pai
Carlos
às 22:12 de 09.12.2008

rsgbueno@gmail.com comentou:

NNNoooooooooooosassa...
Que deprê, gente!!
Dá logo um saravá nesse dia!!!

Rogéria
rsgbueno@gmail.com
às 21:00 de 10.12.2008

Luiza comentou:

Lindo, lindo, lindo.
E verdadeiro.
Luiza
às 22:03 de 10.12.2008

NIELLE comentou:

Realmente há dias assim, e passando por vários dias desses,para ver se me animava ,comecei a ler uma revista(Claúdia) onde li sobre o blog dai logo entrei na net e comecei a ler os textos e então leio esse foi como se estivesse descrevendo os meus últimos dias mas enfim o final me libertou eles "felizmente acabam".Adorei
NIELLE
às 20:57 de 13.03.2009
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