O que há em Satolep
Cheguei a Satolep ao meio dia do sábado e Satolep era Satolep. As ruas úmidas, o frio que contrariava - como sempre - a previsão, a chuva, o cinza, as paredes molhadas, o calçamento de pedra (e nuvem, Vitor, sempre nuvem), o meio fio que sempre nos acompanha fiel como um cachorro pétreo. Estava lá Vó Nininha. Um pouquinho menos magra, um pouquinho menos triste e só isso já foi tão bom que não precisava mais nada. Estava lá Paula, tão feliz, tão feliz de me encontrar. Não que ela tenha dito isso, mas eu sei. Sei porque somos feitas do mesmo material, no mesmo molde. A gente (ainda) não aprendeu a abraçar e dizer que tá feliz de se encontrar, ou que estava com saudade (só muito às vezes). A gente fica eufórica já dias antes, como se viesse morar em nós uma felicidade fervilhante, de formigas elétricas, de bem querer, de voltar pra casa na chegada da outra. E quando a gente se vê, o olho brilha, o riso solta e a gente fica saltitante e com 5 anos (ambas). Estavam lá a Bê, a Aline e a Indaia e é tão bom ter uma família maior. Como eu me sinto em casa perto delas, meu deus. Elas fazem parte do minúsculo grupo dos meus seres humanos abraçáveis, aconchegáveis, para os quais não se precisa dizer nada. Estava lá Msr. Pai que levou uma caixa de sorvete de doce de leite da Zum Zum para mim e Paulinha em pleno salão de beleza, com direito a canudinho de biscoito e tudo. Se isso não é ser mimada, eu não sei o que é. Tava lá Mme Mãe e Antônio, com sorriso e galinha de casaca assada no forno e salada de maionese. Tava lá o presépio da minha infância, guardadinho, que agora vai dar o ar da graça no Natal em produção digna de oliúde (depois eu mostro pra vocês). Estavam lá Facelo, Cris e Téo, o sobrinho cão mais fofo. Ter eles por perto é um seguro de vida. Tava lá cunhado mimoso, caindo de cansado e faminto, mas bom companheiro na hora de devorar massa e tomar vinho. Estavam lá Fátima e Cátia, mais família, mais aconchego. Cátia mais irmã que nunca, coisa mais amada. E estava lá, por alguns segundos, vô Paulo, quando o olho azul dele entrou dento do meu olho no dele no meu no dele, quando por pouquinhos instantes eu tive a impressão (falsa, pode ser, mas que me importa) que ele sabia que eu estava ali, que ele viu o meu olho dizendo com tudo que eu posso dizer de mais bonito, mais inteiro, mais de verdade, sinto a tua falta, vô, lá naqueles poucos segundos, foi tão bom e tão triste, ele parecendo dizer tô aqui, também tenho saudades, e eu quis tanto que o mundo não fosse assim, que a vida fosse outra, que a gente tivesse outra chance de tanta coisa, mais passarinho, mais pescaria, mais sesta no tapete, mais tudo de novo, que realmente não houvesse um despropósito incompreensível desse, que quem não merece não sofresse, que bondade fosse imunidade, que o mundo obedecesse uma lógica qualquer, qualquer que fosse. Mas não.
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Leticia comentou:
Ticcia,muito raramente comento por aqui, apesar de ler sempre.Quando comento,é porque não pude deixar de dizer algo...e hoje não pude evitar de registrar que tu escreves umas coisas que me fazem pensar que ,já que não fui eu quem escreveu,foi escrito para mim...incrível como eu me identifico com muitos dos teus textos.Falam a mim, direto, sem rodeio nenhum, direto no alvo...lindo,,lindo, e tradutor de tantos sentimentos...adorei.
às 10:50 de 13.10.2008