O show. Bom, ainda que tivesse sido médio menos eu teria gostado. Porque eu gosto dele e pronto. Então a menos que aparecesse outro no lugar, eu teria gostado de qualquer jeito, mas... Ai. Sim, eu sei. Isto não é uma crítica isenta, mas vamos lá, qual crítica é?
O fato é que em dezembro de 2006 eu ouvi o CD
12 Segundos de Oscuridad, um CD melancólico e genial, triste pra caramba, que falava de solidão e do encontro com ela, nós que nunca soubemos como estar sós (
Soledad), de que a escuridão vale mais para nos guiarmos do que a própria luz, que só há uma maneira de caminhar: um pé depois do outro (
12 segundos de oscuridad). Também me falou da vida ser muito mais complexa do que parece, de final de relacionamento onde não se sabe se a dor nos valerá de alguma coisa (
La vida es más compleja do que parece), de amores transoeânicos aos quais nem sempre se tem acesso (
Transoceânica), do mundo que se conecta e não nos faz menos sós por isso (
Disneylândia), das dúvidas com as quais a gente sempre conviveu e se alimentou, mas das quais se quer um recesso (
Hermana Duda), de lágrimas que vão ao céu e nos voltam aos olhos pelo mar, de que - por mais que não pareça - o coração vai sarar para poder voltar a partir-se, de que a morte também é uma lei de vida (
Sanar). Então foi ele que estava lá, comigo, nas tardes daquele final de ano em que eu podia ter escrito todas essas músicas, se fosse genial como ele, tentando me reerguer, tentando me achar, tentando apresentar as minhas credenciais à solidão e fazer com ela uma boa dupla. Éramos dois, eu e ele, a nos entendermos muito bem.
Foi destes dias que ele me falou ontem à noite, só que me disse mais coisas além destas. Me disse que a brisa do mar nos leva para casa, mesmo que gente nem saiba onde fica a nossa casa (
Un país con un nombre de un rio), que uma vida vale tanto quanto um sol e que não deixaremos rastros porque somos só poeira de estrelas (
Polvo de Estrellas), que às vezes basta muito pouco (
Guitarra y vos). Também me disse que o amor que a gente deu não se perde e um dia volta, transformado noutro amor que a gente pode receber e reviver, porque nada se perde,
Todo se transforma. Teve a ousadia de tomar emprestada a música mais bonita de Mr. Leonard Cohen para me dizer que o amor pode ser tão bonito quanto um quadro de Chagall (
Dance me to the end of love) e que uma hora, mesmo a gente sendo só um dos pólos, pode-se achar um doce magnetismo de duas cargas buscando o mesmo (
Deseo), que se pode perder a noção de onde termina um corpo e começa o céu e que está tudo bem se duvidamos do coração, perdemos a medida e penduramos a armadura (
Fusión). Mas o melhor de tudo - e isso me disse Jorge no final do show, cantando só pra mim - claro - é que não deve-se acreditar na eternidade das batalhas, nem nas receitas de felicidade, que minha moeda já está girando no ar e agora será o que será (
Sea).
Da participação do Vitor Ramil eu nem precisaria falar, porque eu já elogiei o moço tudo que deu aqui. Só registro de Jorge
Letras Geniais Drexler disse que Vitor é o compositor mais talentoso da sua - deles - geração. Digamos que há empate técnico entre os dois. Basta ouvir a recente
Astronauta Lírico - que pelo nome chega a dar calafrios, mas é das coisas mais lindas já escritas e mais bem cantadas ever.
De alma lavada, alvejada, enxagüada, engomada, passada, restaurada, límpida e translumbrante,
Ticcinha, do céu ao vivo para o Mme Mean
belly comentou:
OK. Provavelmente o show fez mais pelo seu pé do que o repouso. Eu dou a mão à palmatória.às 15:53 de 21.07.2008