Vinha trilhando lá desde casa, passagem rápida na estética para arrumar as sobrancelhas – uma mulher com as sobrancelhas sem arrumar é uma mulher sem expressão, e a mim às vezes resta quase que só a força da expressão. Buscar sapatos que ficaram na forma do sapateiro para ver se conseguem vestir esses meus pés largos demais, grandes demais, sólidos demais para uma pessoa tão suscetível à intempérie. Apanhar certificados de cursos feitos há alguns meses que mais parecem anos. Acabo enveredando por uma rota com várias paragens, uma delas a parada do ônibus que me levará ao trabalho. Beira do rio, gramado de praça molhado pela chuva, às vezes pura lama. E o fulano que mergulhou dentro da minha roupa e me valeu a cantada mais inusitada de tempos: ‘é assim que eu gosto’. Seria uma informação pueril escapada de um id nem tão escondido? Seria uma manifestação de desdém de quem se sente o dono do mundo (e em alguns sentidos é mesmo, pois, por ser vagabundo, sua vida lhe é mais sua do que a minha vida é minha)? Fulano veio me seguindo por entre a grama encharcada, a lama e os carros que passavam rápido. Fulano desistiu quando viu que eu andava por demais ligeiro para o seu jeito e modo vagabundo de ser e viver. Fulano talvez nunca tenha tido suficiente persistência para ir atrás do que fosse, ou Fulano talvez tenha pensado que uma mulher andando tão apressada com seus pés grandes levando aquele corpo de dimensões continentais poderia tornar-se realmente perigosa. Fulano fez bem de ficar cuidando da sua vaga e bunda vida: tenho andado tão furiosa que, se ele efetivamente chegasse a me abordar, haveria sérias dúvidas sobre quem teria estuprado quem.
Ela entrou soberba, como se os pés não tocassem o chão. Na repartição pública, a própria luz ganhou uma outra conotação: o ambiente ficou diferente, as pessoas sentadas às mesas deixavam de fazer o que estavam fazendo para vê-la passar. Aquele lugar sombrio e estritamente funcional onde todos levavam os problemas do órgão mais sensível do ser humano e aguardavam numa fila longa para pegar uma senha que seria chamada somente depois de umas duas horas de espera, e ela ali, chegando. Sorriu, e o tempo quase pareceu parar. Os mais lindos e maiores olhos escuros traziam um brilho discreto e melancólico de quem está feliz mesmo quando está triste, e que consegue ficar sempre um pouco triste, mesmo nos momentos mais felizes. Os cabelos desarrumados com esmero, num penteado clássico e também moderno. O corpo delgado de gazela desfilando entre as mesas, recheado nos lugares certos. Não resisti e chamei-a, e quase nada no mundo é tão doce quanto a expressão de surpresa daqueles grandes olhos escuros. Ela sorriu e seus olhos se apertaram num sorriso que sorri o rosto todo. Eu a abracei apertado e conversamos. Ela cutucou a pedra do meu anel com aqueles longos dedos. Ela precisava trabalhar, eu também. Ficamos de nos encontrar no final de semana. Ficou o perfume dela na minha bochecha, onde está até agora.
Rodrigo comentou:
Criada,adoro ler-te!
às 17:53 de 29.04.2008