Parenti Serpenti, de Mario Monicelli
A cultura ocidental é cheia de adágios sobre os infortúnios da vida em família e em comunidade. Quase todos verdadeiros em quase tudo. E há o fato incontestável: família alguma é como aparece nos comerciais de margarina. De perto, ninguém é normal e nas famílias, menos ainda. As famílias são verdadeiros poços de neurose, culpa e idiossincrasia. Há uma torvelinhante relação de amor e ódio como o olho de um permanente furacão em câmera lenta no que cerca e permeia as relações familiares. Você ama as pessoas da sua família e só quer o bem delas - e exatamente por isso, lhes faz mal. A sua família só quer o seu bem, a sua felicidade, e por isso mesmo você se sente terrivelmente cobrado, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Famílias são boas quando são boas e, quando não, são um mal necessário. Todo mundo vem de algum lugar, não importa que seja uma família pai-mãe-irmãos, só pai-mãe, só mãe, só pai, só avó ou mesmo só irmãos. Todo mundo já foi um bebê babão que precisou que tudo fosse dado na mão e que ficaria imundo e doente se não fosse um terceiro a limpá-lo e cuidar da sua saúde. Eu ficava burramente me perguntando se o mero fato de ter nascido, sem nunca ter pedido para isso, justificava toda a cobrança que vem depois por conta dos cuidados imprescindíveis que me foram dispensados. Uma coisa "como você ousa me tratar assim, eu, que te alimentei e limpei tua sujeira". Eu nunca pedi para ser alimentada, nem para limparem minha sujeira. Para começo de conversa, não pedi sequer para existir: fui trazida a esse lugar inóspito, barulhento, fétido e sujo muito a contragosto. E isso simplesmente não importa: a vontade ou ausência de vontade de nascer, ser, existir; a vontade ou ausência de vontade dos seus familiares de cuidarem de você. É cretinice prepotente ficar se escorando em desculpas ocas como "eu não pedi". O fato é que você passou a existir e pessoas que preferiam fazer qualquer outra coisa (com certeza) ficaram cuidando de você, aturando você, tenha sido por amor ou por mero atavismo.
Não se é bebê babão toda a vida. Bebês crescem e se transmutam em adultos babões, que salivam copiosamente perante todas as coisas que desejam e que não podem alcançar - porque inerente à humanidade só desejar o que não tem. Ninguém olha o que tem: basta passar ao domínio para perder significativa parcela do valor, tal carro zero saindo da concessionária. Miríades de homens e mulheres ficando velhos e enrugados e babando por um poderzinho, uma atençãozinha, um exerciciozinho de um atozinho ditatorial impositivo. Passamos a viver por migalhas e, se a vida não nos proporciona, voltamos a ela, que no nosso equivocado imaginário emocional é quem tem que suprir nossas necessidades todas: a família.
Famílias sempre têm ao menos um aproveitador de plantão - isso se não for uma família especializada em aproveitadores: daí ela terá uma cria de nobre caráter. Sói acontecer. Mas voltando: famílias podem contar com alguns poucos aproveitadores ou com muitos. Desde estelionatários emocionais até estelionatários de verdade, e nem se pode afirmar quem dá mais prejuízo. Se você é médico, familiares que nunca telefonam para dar um "oi", nem mesmo no seu aniversário, farão filas quilométricas na frente do seu consultório ao descobrirem qualquer coisinha fora do normal. Farão filas e chantagem emocional para serem atendidos *e* não pagar a consulta nem os exames laboratoriais. Se você é dentista, o mesmo. Se você é advogado, prepare-se para trabalhar de graça para a sua família o resto da vida e para receber telefonemas depois das dez da noite perguntando sobre o processo, telefonemas esses feitos por pessoas que não têm a menor noção de como seja ou funcione um processo e que não entederão absolutamente nada, por mais didaticamente que você explique. Se você é professor, será cooptado para ensinar o filho da irmão da prima em terceiro grau que está ruim em matemática - não importa que você seja professor de português e que nunca nem tenha visto a prima em terceiro grau, ou seu (dela) irmão, ou o filho do seu (dela) irmão: professor é professor, advogado é advogado, médico é médico, dentista é dentista, ninguém tem especialização quando se trata de família. Após resolvidos os problemas daquela criatura totalmente desconhecida que tem algum remoto parentesco com você numa linha colateral transversal de trigésimo sexto grau, ela desaparecerá,
completamente insatisfeita - não importa que você tenha atendido nos horários mais concorridos de sua agenda ou que tenha passado noites preparando aulas ou petições -, afirmando que "não dá para pedir NADA para parente, porque eles fazem tudo malfeito e de má-vontade".
Isso, é claro, se os familiares aproveitadores não vierem pedir diretamente o mavioso "DINHEIRO".
Porque o tio do trisavô da irmã da neta da sobrinha-neta da tia-avó faleceu e ninguém tem DINHEIRO para pagar o enterro. Porque a bisavó da tia da irmã da sua prima em quarto grau está numa casa geriátrica e ninguém tem DINHEIRO para custear a estadia dela - e ninguém quer ficar com ela, nem você, e com toda a razão. Porque o primo em quinto grau da prima em terceiro grau está com uma doença na perna e não tem DINHEIRO nem plano de saúde e, ah, não vamos sujeitar o 'pobre fulano' (sim, daí ele já é um total coitado, esse 'pobre fulano' que você viu umas duas vezes na vida quando muito) a utilizar os falidos serviços do SUS, não é mesmo? O que diria nosso patriarca Johann Fa-Fe-Fi-Fo-Fuchs se soubesse que seus descendentes em sesquicentésimo grau estão usando os serviços do SUS?!?
(Johann Fa-Fe-Fi-Fo-Fuchs provavelmente morreu de peste bubônica numa cidade européia sem encanamento de esgoto e sem tratamento de água. Johann Fa-Fe-Fi-Fo-Fuchs certamente ficaria maravilhado de ser atendido por um sistema de saúde, mesmo que fosse o SUS. Mas isso, ISSO, ah!, ninguém lembra.)
Daí você, assolado de todos os lados por milhares de pedidos de toda sorte, fica pensando "como é que essa gente não consegue resolver seus problemas, se eu consigo resolver os meus?" Eis o mistério da fé: você resolve os seus problemas e não faz absolutamente nenhum ruído. Você é uma pessoa fina, educada, polida, não sai por aí berrando em alto e bom som o estado do seu intestino ou da sua conta bancária. Então, para toda essa caterva familiar, você passa a ser o
problem resolvêitor Tabajara: alguém que resolve problemas. Nomeado Resolvedor de Problemas, prepare-se, pois tudo o que há de errado no mundo passará a ser de sua responsabilidade. Toda aquela parentada ensandecida que seria capaz de enlouquecer o próprio Ratinho passará a lhe atribuir toda sorte de demandas e AI DE VOCÊ se não conseguir resolver tudo,
e rápido!
Horrorizada com tudo isso, resolvi reduzir drasticamente minha família. Meus familiares são somente os que realmente me importam e me dizem respeito. Pessoas que falam comigo, que participam efetivamente da minha vida, que fazem contato pelo fato da afeição que existe na nossa relação e não por conta das vantagens que posso vir a proporcionar. Desse seleto e diminuto grupo, podem vir toda sorte de problemas, que procurarei ajudar com o maior empenho. Os demais? Não são família. São, no máximo, parentes.
E parente, você já sabe: é serpente.
Ana Paula comentou:
Amargo, mas verdadeiro. Ponto pra Criada, again.(Ah, na próxima edição, inclua nos exemplos o arquiteto. é sempre solicitado pra dar palpites na decoração, fazer um projetinho pra reforma do apartamento, afinal, ele faz isso rapidinho, não dá trabalho nenhum)
às 22:28 de 31.05.2007