Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Vou me despedir de Porto Alegre. Do rio, da Redenção, das ruas da Cidade Baixa, da padaria que é armazém, que se chama da Esquina, mas é no meio da quadra. Vou me despedir dos jacarandás da praça, dos ipês das ruas que só vão florecer em setembro, ou talvez mais tarde, porque o inverno foi tão frio. Vou ouvir Nei Lisboa, vou olhar os telhados de Paris portoalegrenses, a cúpula da catedral que povoou meu horizonte por 8 anos, os ruídos da Lima e Silva. Vou me despedir do Zaffari, o “super” da frente de casa que funcionou como meu freezer estendido, vou comprar ervamate, pastelina, guaraná Fruki. Vou andar pelo centro, pela Praça da Alfândega, vou sentir saudades antecipadas da feira do livro, vou ao mercado público lamentar não ter comido mais no Naval, não ter levado mais salada de frutas da Banca 40 para casa, não ter aproveitado mais a banca de frutas, não ter usado a tele-entrega da Japesca. Vou olhar o Rio. Vou andar na Borges. Vou querer ter morado na Duque. Vou ouvir Vitor Ramil e pensar em Satolep, sempre uma cidade em Delibab para quem lá foi criado, sempre uma melancolia de cidade por detrás de todas as outras cidades. Vou tomar chimarrão sabendo que chimarrão em qualquer outro lugar é bom, mas tem outro gosto. Vou reclamar do frio, amaldiçoar o frio, sentir frio, querer que o frio se vá. Vou levar comigo a memória do frio, das noites geladas, das tardes sem sol, do mundo recolhido, reservando forças para brotar em algum momento, com sol e um pouco de calor. Vou querer levar o Atelier das Massas comigo, o Gelson e o maior garçon do mundo. Vou maldizer todas as manicures que não são a Sassá, que não riem como a Sassá, que não são uma diva Black cinquentista, que não me chamam de “meu bem” com deboche. Vou passar pela frente do apartamento do Alex, vou olhar bem para porta e pensar que se tudo der errado (não vai dar), é ali onde eu vou bater. Vou comer cachorro quente do Rosário. Vou ligar para o Facelo, chamar ele de jacuzão e mandar ele passar lá em casa, por que ainda vamos estar a 5 quadras de distância. Depois vamos sentar no sofá e não dizer nada, só aproveitar a sensação de que porque existimos um para o outro, jamais vamos estar sozinhos nesse mundo. Vou ganhar beijos do Teteco, o cão mais fofo da face da terra. Vou dar tchau para a Cris, que vai disfarçar para não chorar. Vou fazer almoço pro meu pai, tomar chimarrão e ir ao Olímpico de mãos dadas e vou voltar a ter 7 anos, de camisa do Grêmio e rádio no ouvido, vou pedir para ele comprar cachorro quente no intervalo. Vou encontrar Jojo's, Ro, Greg, Belly, vou fazê-los prometer que vão me visitar, que vão me ligar, que vão estar comigo. Vou andar pelo Moinhos de Vento, pela Bela Vista, vou me despedir do Alemão e da Isa, vou rir, vou me esconder para chorar. Vou explicar para Hilda para onde vamos, vou contar que estamos felizes. Vou trazer a mãe e a vó para me mostrarem a força que eu sei que tenho porque elas têm. Vou ver o Maurício e os meus sobrinhos, a Milena, o Maucisquinho e a Maria Antônia. Vou cheirar o pescoço da Antônia. Vou olhar cada parte da minha antiga casa, lembrar da minha história, me valer dela, estar certa de quem sou e do que eu quero. E vou levar a Paulinha junto, porque ninguém é de ferro.
Clarice me dói toda, me dói as mãos, os pés, os fios do cabelo sobre a testa, o espaço entre a unha e a carne na ponta dos dedos. Clarice me dói nos espaços do corpo que descubro que existem quando a leio, uns lugares secretos, insondáveis, que só denunciam sua existência aguda quando soa a palavra perfeita, quando a frase termina da última - e melhor - maneira que eu poderia imaginar. Clarice é um susto, é um disparate e uma bênção. Leio-a quase com raiva, quase com náusea, quase com gozo - como fazemos as coisas quando nos apaixonamos. Lê-la pela primeira vez é o maior milagre de que me recordo: a linguagem subitamente ganhara vida, me pegara pelos punhos, chacoalhara, me esbofeteara a face e depois me dera um beijo. Pela primeira vez a linguagem era outra coisa, uma coisa que doía, doía e fervilhava, era violenta, brutal e, por mais inteligente e perspicaz que eu fosse, por mais sensível e humana que eu viesse a me tornar, me surpreenderia caçoando de todas as obviedades e traria à tona coisas de mim que eu ignorava e ignoro. Clarice me dói sempre, eu a leio com o cuidado de quem se move entre navalhas, completamente vulnerável, nua e à deriva, exposta ao maior perigo de todos - ao perigo de mim mesma.
Tentação (Clarice Lispector, in A Legião Estrangeira)
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
Beijo para a Melina, que me deu um texto do Caio, que me trouxe de volta à Clarice.
A donzela chegou muito excitada da escola e não parava de falar, mesmo com a proximidade da hora de dormir. Pediu um lencinho de limpeza e disse que precisava vestir a mamadeira, porque hoje estava frio. Vários “modelos” testados depois, ela conseguiu embrulhá-la e carregar o embrulho pelo tecido, como uma trouxinha.
- “Olha, ele é um cadendeiro!”
- “Cadendeiro?!”
- “Um cadendeiro, é!”
- “O que é isso, filha?”
- “Cadendeiro é um moço que chora.”
- “Ahn… E onde você aprendeu essa palavra, menina?”
- “Em Paris, ué! Na minha casa de Paris, você não sabia que eu tinha?”
Sim, claro, ela <3 E eu aqui, respirando no saco, à beira da ovulação múltipla.
Certos fatos são como os círculos concêntricos que se formam quando a proverbial pedra cai no proverbial lago. Têm um significado imediato e têm as conotações que se alastram, com significados cada vez maiores. Essa questão dos padres pedófilos, por exemplo. No seu centro há o drama individual de um homem e sua compulsão doentia, e das suas vítimas. O significado seguinte é o da condição anti-natural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia, que se vale da presunção de inocência que o voto de castidade lhe dá para praticar seu vício. Outro significado maior é o do poder que a religião tem sobre seus fiéis, para o bem ou para o mal, expressa na imagem do pastor guiando seu rebanho, mas sem nenhuma garantia do caráter do pastor. E se você quiser continuar seguindo estes círculos sucessivos de implicações fatalmente chegará à neurose sobre o sexo que está na base de toda ideia de clausura e renúncia às tentações da carne, e - o circulo seguinte - na base da nossa civilização. A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás, com suas regras de abstinência e sua sonegação à vista pública de qualquer parte do corpo feminino.O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora. Os padres pedófilos, com sua preferência por meninos, poderiam muito bem alegar que sucumbiram a demônios menores.
O último dos círculos irradiados tem a ver com a Igreja e seus costumes, como a demora em reconhecer seus erros. Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes, que destruíram a vida de tanta gente. Mas nada disto afetará sua majestade. Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência obscurantista a todas as revelações da Ciência e à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas. Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrograda na questão dos anti-concepcionais, mas um dia pedira desculpas por isto também. E pela sua responsabilidade nas vidas destruídas. O que é eterno não precisa ter pressa.
Um Chico Buarque coçando o dedão e um Edu Lobo estalando de novo e de lindo, porque bailarinas não precisam se preocupar com nada, dá tudo sempre certo e elas seguem cada vez mais e mais lindas.
Sessão das 15:15 no Estação Ipanema, eu e Paulinha, Paulinha e eu, prontinhas para ver o tão esperado A Single Man (de que falarei logo após).
Senta ao nosso lado uma senhora dos seus, vamos ser benevolentes, setenta e tal anos. Bolsa grande, pacote de presente e um saco imenso (e barulhento) de pães de queijo. Tudo no colo, um himalaia prontinho para desmoronar. Ajeita isso, cai aquilo, ajeita aquilo, despenca mais alguma coisa. Começa o filme e a nossa vizinha dá-lhe comer pão de queijo de boca aberta e estalante, porque obviamente quem leva pão de queijo para cinema não sabe comer de boca fechada. Cena linda do filme, lágrimas nos olhos do Colin Firth ao saber que seu companheiro morreu, uma obra prima de atuação, uma coisa e a desgraçada da indivídua jhsfgsfgsrsgsgbsg, shshsrgfshsjhshs shjshhstgsts nham, nham, nham, splat, splat, nham, jhsfgsfgsrsgsgbsg, shshsrgfshsjhshs, shjshhstgsts . ÓDIO. ÓDIO. ÓDIO. Óquei. Acabou o pão de queijo, mais 15 min até a infeliz amassar o saco e decidir onde guardar, desfazer o himalaia, e refazê-lo, não sem antes, claro, passar por todo processo empilha-desaba-empilha. E aí? Acabou? Não, claro que não. A sem noção faz o quê? Dorme, senhoras e senhores, dorme, de vez em quando dá gritinhos e ressona como uma bovina exausta.
Aí eu me dei conta que basta eu entrar num cinema para lembrar porque eu não vou mais a cinema. Farei mais uma tentativa, comprando lugar na última fila e esperando em cristo que o povo se aglomere na meiúca. Mas em verdade vos digo que a minha esperança é parca.
Dito isso, o filme.
Eu amei, tá decidido que comprarei em Blu-Ray se houver, porque o troço é inacreditável, mesmo com a cowléga atrapalhando a concentração. Esteticamente um assombro, dos filmes mais inacreditavelmente lindos e perfeitos e cools que eu já vi. TODAS as cenas são um troço. TODAS. Colin Firth arrasou muito, Julianne Moore aparece pouco e também tá maravilhosa (eu não vou falar do vestido porque vou ter uma crise, nem da maquiagem, nem do cabelo, nem do anelão, nem de nada - incluindo aí o sofá em círculo - pronto, tô em crise). O filme e sua história, seu ritmo, seus diálogos, enquadramento, fotografia, tudo é poesia e sensibilidade e arrebatamento e comoção. Sem nunquinha ser piegas ou clichezento, sem descer do salto, mesmo sem usar um. Amei tanto, tanto, tanto. Eu não entendo nadica de cinema, mas ó, se você se identifica um cadinho comigo, vá. não perca. E de preferência, vá durante a semana e sente na última fila, longe de pães de queijo e roncos.