19.11.2010

Felicidade e alegria

(Contardo Calligaris, Folha de São Paulo)


Ser alegre (muito melhor do que ser feliz) é gostar de viver mesmo quando a vida nos castiga
___________________________________________
___________________________________________

QUANDO EU era criança ou adolescente, pensava que a felicidade só chegaria quando eu fosse adulto, ou seja, autônomo, respeitado e reconhecido pelos outros como dono exclusivo do meu nariz.

Contrariando essa minha previsão, alguns adultos me diziam que eu precisava aproveitar bastante minha infância ou adolescência para ser feliz, pois, uma vez chegado à idade adulta, eu constataria que a vida era feita de obrigações, renúncias, decepções e duro labor.

Por sorte, 1) meus pais nunca disseram nada disso; eles deixaram a tarefa de articular essas inanidades a amigos, parentes ou pedagogos desavisados; 2) graças a esse silêncio dos meus pais, pude decretar o seguinte: os adultos que afirmavam que a infância era o único tempo feliz da vida deviam ser, fundamentalmente, hipócritas; 3) com isso, evitei uma depressão profunda pois, uma vez que a infância e a adolescência, que eu estava vivendo, não eram paraíso algum (nunca são), qual esperança me sobraria se eu acreditasse que a vida adulta seria fundamentalmente uma decepção?

Cheguei à conclusão de que, ao longo da vida, nossa ideia da felicidade muda: 1) quando a gente é criança ou adolescente, a felicidade é algo que será possível no futuro, na idade adulta; 2) quando a gente é adulto, a felicidade é algo que já se foi: a lembrança idealizada (e falsa) da infância e da adolescência como épocas felizes.

Em suma, a felicidade é uma quimera que seria sempre própria de uma outra época da vida -que ainda não chegou ou que já passou.

No filme de Arnaldo Jabor, "A Suprema Felicidade", que está em cartaz atualmente, o avô (extraordinário Marco Nanini) confia ao neto que a felicidade não existe e acrescenta que, na vida, é possível, no máximo, ser alegre.

Claro, concordo com o avô do filme. E há mais: para aproveitar a vida, o que importa é a alegria, muito mais do que a felicidade. Então, o que é a alegria?

Ser alegre não significa necessariamente ser brincalhão. Nada contra ter a piada pronta, mas a alegria é muito mais do que isso: ser alegre é gostar de viver mesmo quando as coisas não dão certo ou quando a vida nos castiga. É possível, aliás, ser alegre até na tristeza ou no luto, da mesma forma que, uma vez que somos obrigados a sentar à mesa diante de pratos que não são nossos preferidos ou dos quais não gostamos, é melhor saboreá-los do que tragá-los com pressa e sem mastigar. Melhor, digo, porque a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.

Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para nós mesmos. Alguém perguntará: é reconhecível como?

Pois é, para quem consegue ser alegre, a lembrança do passado sempre tem um encanto que justifica a vida. Tento explicar melhor.

Para que nossa vida se justifique, não é preciso narrar o passado de forma que ele dê sentido à existência. Não é preciso que cada evento da vida prepare o seguinte. Tampouco é preciso que o desfecho final seja sublime (descobri a penicilina, solucionei o problema do Oriente Médio, mereci o Paraíso).

Para justificar a vida, bastam as experiências (agradáveis ou não) que a vida nos proporciona, à condição que a gente se autorize a vivê-las plenamente.

Ora, nossa alegria encanta o mundo, justamente, porque ela enxerga e nos permite sentir o que há de extraordinário na vida de cada dia, como ela é.

É óbvio que não consegui explicar o que são a alegria e o encanto da vida. Talvez eles possam apenas ser mostrados: procure-os em "Amarcord" (1973), de Federico Fellini, em "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" (2003), de Tim Burton ou no filme de Jabor. "A Suprema Felicidade" me comoveu por isto, por ter a sabedoria terna de quem vive com alegria e, portanto, no encantamento.

Segundo Max Weber (1864-1920), a racionalidade do mundo industrial teria acabado com o encanto do mundo. Ultimamente, bruxos, vampiros, lobisomens, deuses e espíritos andam por aí (e pelas telas de cinema); aparentemente, eles nos ajudam a reencantar o mundo.

Ótimo, mas, para reencantar o mundo, não precisamos de intervenções sobrenaturais. Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.


______________________________________________________________________________________________

Bom fim de semana.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 08:54 de 19.11.2010
comentários (2)

14.11.2010

Satisfações ou Sinal dos tempos

Quando meu terapeuta me deu alta, uma semana antes da mudança (sim, detratores, podem dizer que ele não tinha escolha, mas o fato é que tinha, sim - indicar terapeuta no Rio, p.ex.), me perguntou o que eu achava de tentar um vôo solo nesse período, sem terapia, sem terapeuta. Segundo ele, terapia é para fazer as perguntas que a gente mesmo não está se fazendo, para abalar as certeza que achamos que temos e achar as raízes das insatisfações - ou tomar consciência delas. Nesse momento da minha vida seria hora de viver, simplesmente, viver e sentir.

E acho que é também por isso que tenho escrito tão pouco. Escrever é se traduzir, pensar bastante a respeito dos fatos e sentimentos, analisar pontos de vista, se questionar, e eu não estou traduzindo nada, meus amigos. Tô cantando numa língua desconhecida que me dá vontade de dançar, muito pouco preocupada com o que ela significa e, para meu espanto e felicidade, tô pouco me lixando (no melhor dos sentidos).

Portanto, entenda a exiguidade de posts como ótimo sinal, tá?

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 12:25 de 14.11.2010
comentários (4)

27.10.2010

Toda a diferença

Eu acho mesmo que a disposição que a pessoa tem de lutar pelo que lhe faz feliz determina quem ela é, simples assim. Lutar pela felicidade não é fácil, muito antes pelo contrário. No mais das vezes, implica tomar o caminho mais difícil, abandonar o conforto do seguro e certo e decidir enfrentar obstáculos, situações imprevisíveis, críticas ferozes, repressão. Implica fazer escolhas, se posicionar, defender suas opções, lastreá-las nos valores que acreditamos e podemos defender, inclusos aí o valor do próprio desejo, da busca do que se quer a despeito das convenções, necessidades ou exigências alheias. Implica ser capaz de saber o que se quer e ter forças para tentar. Implica, também, é claro, acreditar que se é capaz de conseguir, ou obviamente jamais se trocaria o que se tem pela certeza de um insucesso, ou pelo acachapante terror de que isso aconteça. Portanto ser feliz depende de confiar em si mesmo, na sua capacidade, na sua força e na força do seu amor, do seu desejo, do seu querer. Parece óbvio, mas não é.

Portanto, que eu siga com a coragem de ser fiel a mim e ao que quero, que eu não perca nunca o discernimento do que me serve, do que é bom para mim, do que me sustenta e nutre, do que alimenta a minha alma, do que me faz bem, do que me ilumina e me eleva. Que eu jamais tenha medo de abdicar do conforto das certezas em nome do que eu acho que me fará feliz, ainda que eu saiba que esperam outra coisa de mim. Que eu jamais perca a fé em mim mesma, que a minha felicidade nunca tenha valor menor do que o contentamento alheio, nem que a responsabilidade, nem que o bom senso. Que eu não envelheça antes de estar velha, que eu não desista de viver o que quero, que eu jamais me arrependa de não ter tentado tudo, de todos os jeitos, inclusive os impensáveis, os inconseqüentes, os reprováveis e pouco recomendados. Que eu não me desculpe com a vida, que eu não despiste os meus sonhos, que eu jamais deixe de ter a consciência da efemeridade de tudo e todos. Que eu nunca precise me afundar no que quer que seja para me sentir menos frustrada porque minhas lacunas essenciais já são grandes e difíceis o suficiente. Que eu jamais escolha não amar: nem por medo, nem por pena, nem por covardia, nem por absolutamente nada nem ninguém.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 23:18 de 27.10.2010
comentários (21)

28.04.2010

hihihihihihihi




Taí, muito bem dito. @cafein disse no twitter que não finge felicidade. Eu também não. Não finjo, não simulo, não emulo, não faço de conta, não atuo, não forjo, não fraudo, não minto. Não sou uma pessoa de arroubos de felicidade histriônica, não sou arroz de festa, não tô em todas, não gargalho alto, não topo tudo, não tô sempre a fim, não to aí para o que der e vier, u-hu. Até porque eu canso, encho o saco, me irrito, desgosto das coisas e das pessoas, perco a paciência. Não, não acho tudo espetacular, lindo, maravilhoso, fantástico, único, especial, incrível, oh, que emoção e não faço a mínima questão de demonstrar o contrário, muito pelo contrário. Desculpem-me os sensíveis e carentes, minha fidelidade e meu respeito são, sobretudo, a mim mesma. Além do mais, felicidade para mim tem a ver muito mais com estar confortável e ter paz de espírito. Às vezes, pode até ser num lugar barulhento onde todos estejam falando bem alto e festejando, mas confesso que esta é a exceção das exceções . No geral minha felicidade é quieta e pacífica, mansa e calma, uma satisfação interna que é muito mais um calorzinho na barriga do que um saltitar alucinado, muito mais um aconchego bom da vida e uma satisfação pura por estar ali naquele momento do que um festejar contínuo de suas maravilhas. Podem me chamar de bola murcha, sem graça, blasé, eu realmente não me importo. Não tenho dúvida que eu não preferiria ser a entusiasmadinha ou a felizinha da Atma.



logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 09:47 de 28.04.2010
comentários (13)

10.02.2010

Ave Cristina Yang



Episódio 13 da sexta temporada de Grey's Anatomy. E eu vou guardar para assistir Cristina Yang pra sempre. Na verdade tô pensando em fundar uma religião Yanguiana.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 22:37 de 10.02.2010
comentários (5)

27.01.2010

Um manifesto pró realidade

Às vezes o que a gente precisa mesmo é de mais realidade e menos fantasia. Nada como um bom choque de realidade concreta e incontestável, mais realidade e fatos, dados, situações, circunstâncias, concretude, números absolutos, provas, evidências, indícios palpáveis, lógica, materialidade, preto no branco, análise fria, empirismo, matemática, dureza, crueza. Porque a gente sonha e idealiza, lembra do que quer, justifica, cria uma história outra em que a gente escolhe o mocinho, roteiriza, romanceia, ficcioniza, edulcora, enfeita, perfuma, ajeita, muda a luz, escolhe a trilha, põe a culpa nos outros, na puta vida, nos maus, no acaso, no destino, no bispo, no pato, traveste, filtra memória, esquece o que não interessa. Porque a gente fantasia, e vai vivendo de mentira, e vai vivendo bobamente e deixa de viver de verdade. Consciência, sim. Mesmo que ela traga em si e consigo uma versão bem mais triste de nós mesmos e do que a gente escolheu acreditar, mesmo que ela deponha contra nós, mesmo que ela desnude nossos piores medos (aqueles que a gente no fundo sabe que procedem). Mesmo que ela nos diminua e nos mediocrize, mesmo que ela nos apequene e enfeie, mesmo que ela nos desvalore. Consciência para viver a realidade e conhecê-la, para decidir se é boa e se nos serve e se, for o caso, mudá-la para fazer dela o que temos vontade que ela seja.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 23:56 de 27.01.2010
comentários (4)

20.11.2009

Pequeno dicionário idiossincrático da memória, 36.



Maggie Taylor

Insegurança, s.f., é um circo onde somos tudo: equilibrista, palhaço, engolidor de facas, fera, domador, mulher barbada e trapezista. Só não somos dono do circo.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 10:01 de 20.11.2009
comentários (5)

08.10.2009

Pequeno dicionário idiossincrático da memória, 34 e 35



Maggie Taylor

Ignorância, s.f., é uma menina sorridente e cega que acha que enxerga tudo dançando anestesiada em um salão repleto de armadihas em garra.





Maggie Taylor

Consciência, s.f., é uma velha sofrida e cheia de dores que tem por olhos imensas lupas caminhando lentamente e com muita atenção por uma estrada que ela tem certeza de que não sabe onde vai dar.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 21:45 de 08.10.2009
comentários (5)

02.10.2009

Contardo Calligaris, o cara

«...contrariamente ao que gostaríamos de acreditar, o amor entre pais e filhos não é incondicional, mas é parecido com os outros amores de nossa vida, tem razões para surgir, para acabar ou mesmo para se tornar ódio.» Aqui, a íntegra. Para pensar, bastante.


«A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir». Mais uma, aqui, já que este senhor parece ter estado sentado atrás do meu divã hoje.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 00:07 de 02.10.2009
comentários (2)

14.08.2009

A bêbada e a equilibrista

Quando ficamos sabendo de alguém que apaixonou-se despirocadamente e investiiu tudo e se arriscou e se expôs e mesmo com medo de ser partir em dois, ousou atirar-se de cabeça, danem-se as convenções, as expectativas, dane-se tudo, geralmente somos atacados dor dois sentimentos paradoxais: 1) de recuperação de fé na humanidade - tomara que dê certo e que tudo seja bom, porque aí nos convencemos de que, mesmo rarissimamente, essas coisas acontecem; 2) de raiva e de inveja - tomara que não dê certo para que nos tranquilizemos pois, afinal, não aconteceu conosco porque não funciona assim com mais ninguém.

No meu caso o sentimento 1 tende a dominar.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 09:23 de 14.08.2009
comentários (6)

12.08.2009

O hiper-texto

Uma coisa tem me chamado atenção e quero dividir com vocês, para que vocês me digam se é algo que vocês também já perceberam ou se a partir de agora podem se ligar e perceber.

«Acima» de quase todo diálogo/conversa/papo, rola um meta diálogo/conversa/papo que não diz quase nada a respeito do assunto específico discutido, mas sim a respeito do posicionamento daquelas pessoas diante uma da outra e/ou do tema genérico que ali está sendo tratado (ainda que imperceptivelmente).

Esta deve ser uma ferramenta muito utilizada pelos analistas/terapeutas, claro, que são treinados para captar o meta papo (inclusive - e principalmente) da gente com a gente mesmo. Mas eu confesso que as coisas que eu tenho «ouvido» são bem inquietantes, já que as pessoas acabam revelando o que não revelariam, muito possivelmente nem para si mesmas.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 10:37 de 12.08.2009
comentários (9)

24.04.2009

Sobre adequação e verdade


- Você tem que me amar!

Eu adorei os dois posts mais recentes da Belly e o assunto se conecta bastante com a coluna dessa semana da Paradoxo e com algumas conversas com o Alvaro e com algumas sessões bem punks com o terapeuta, então bora lá, deixa ver se eu consigo dividir umas coisinhas com vocês.

Ser aceito é ótimo, ser amado é excelente, não estar sozinho é uma maravilha. Porque a despeito do que possa se dizer de que a gente TEM QUE se bastar e ser feliz, a verdade, convenhamos, é que todos queremos que TODOS nos amem, nos gostem, nos aprovem, nos admirem, nos convidem pras festcheeenhas (nem que seja para aquelas que a gente nem que ir), sintam nossa falta, nos achem maravilhosos. E aí a gente tem duas opções (três, na verdade): ser a gente mesmo, ser um êmulo em constante esforço para agradar todo mundo, ou despirocar e agredir todo mundo porque já que não se pode juntar-se a eles, vença-os pelo cansaço.

Todas as opções têm vantages e desvantagens, para si e para os outros, obviamente.

Quando a gente é um agradador, todo mundo te ama, mas ama aquele êmulo que você inventou. Você se sente amado, mas sabe lá não tão no fundinho que o que eles amam não é você, é o seu esforço de agradar e, então, você se sente amado, mas não se sente; não é abandonado, mas sabe que se a máscara cair, babaus.

Quando a gente é um agressor, todo mundo te odeia, mas odeia a geni que você incorporou. Você sabe que não te odeiam verdadeiramente, odeiam o personagem que você criou como seu anteparo, como seu testa de ferro, e pode viver com a secreta (e confortável) sensação de que SE te conhecessem de verdade, gostariam de você. Neste caso há um puls a mais: se algum doido amar você nessas circunstâncias, bah, aí sim, é amor de verdade.

Quando a gente consegue ser a gente mesmo, não tem mentira atrás da qual se esconder. Quem te ama, ama você, quem não gosta de você realmente não gosta. Isso é bom, mas é ruim e é ruim mas é bom. As pessoas que te amam, te conhecem, sabem dos prós e contras, estabelecem uma relação verdadeira e, portanto, mais difícil e mais fora do controle (não é você que manipula, que compra amor ou ódio, é o outro que gosta ou não gosta). As que não gostam de você não gostam e pronto, você tem que viver com isso. Elas não vão te aplaudir, te apupar, te validar, te apoiar. Elas simplesmente não gostam de você e muitas vezes vão deixar isso bem claro e vai doer (porque, lembra, a gente quer que TODOS nos amem).

Se você for exótico, há quem vá achar você feio. Se você é livre de espírito e resolveu que vai ter várias experiências, há quem vá dizer que você é promíscuo. Se você adora ter papos cabeça, vai ter quem ache você um chato. Se você compartilhar suas angústias existencias, vai ter quem ache você um deprimido chorão. Se você for super sincero e disser as verdades duela a quien duela, vai ter quem te ache um mal educado. E assim por diante.

É o preço que a gente paga para ser a gente mesmo, o preço da desaprovação de alguns que, a meu ver, vale o amor verdadeiro de outros. Basta conseguir fazer esta opção.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 10:43 de 24.04.2009
comentários (6)

17.12.2008

A arte imita a vida e vice-versa, sim senhor



A notícia citada no post abaixo, que chamou tanto a atenção da Belly quanto a minha, tem um ponto que eu acho crucial. Ao que parece (não dá pra ter uma idéia muito boa dos reais resultados de uma pesquisa lendo vinte e poucas linhas), o «grande problema» das comédias românticas é muito menos a idéia de que a gente pode achar um grande amor e se apaixonar loucamente (isso realmente acontece) e muito mais a idéia de que depois disso há um happy ever after pelo simples fato de que aquela ali é a sua alma gêmea.

Amar e ser amado requer disposição e trabalheira. De se mostrar e de enxergar o outro, de viabilizar, construir, consertar e concertar, lutar e querer muito. Depois da paixão e dos sparkling diamonds, depois de correr ao aeroporto e evitar que ele vá embora pra sempre, depois de ir a Marselha pedi-la em casamento, depois que a parte hollywwodiana termina, começa o nosso belo filme real.

E a parte hollywoodiana existe? Existe. Tenho eu aqui minha cota de situações encantadoras e que dariam um ótimo seriado da Fox, ou da Sony, ou ainda um filme com a Marisa Tomei ou com a Ashley Judd (Audrey seria pedir demais? Ok). O problema é que não deu material para a segunda temporada, nem para a seqüência do filme de grande bilheteria: o roteiro seguinte é de filme europeu daqueles de pensar, com gente de verdade, cheia de defeitos e medos e carências, que faz merda e se magoa, magoa os outros e tenta acertar - e esses a gente sabe que nem todo mundo curte com sorriso no rosto e pipoca na mão.


logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 09:34 de 17.12.2008
comentários (5)

08.12.2008

Finalmente

Há dias em que a vida dói mais, em que custa mais viver. Há dias em que finalmente a força falta e desaba-se sobre si mesmo, implode-se a si, derruem-se os alicerces, cedem as bases, dobram-se os joelhos, apequenam-se as mãos, encolhem-se os ombros, murcham-se os olhos, paralisam-se as pernas. Há dias em que as pernas já não se conseguem pôr-se a andar, não respondem, exaustas, trôpegas, inertes, não se firmam, não se prestam a mais nada ainda que, ainda como, ainda se. Há dias em que basta de desculpas, justificativas, bons modos, intenções, vontade e ânimo. Há dias em que o mundo te olha e pergunta as mesmas perguntas de sempre e não sabe-se mais nada daquilo, esqueceu-se da fórmula, do verbo, do jeito. Não se tem mais jeito, e se algum dia jeito houve, não se sabe. Há dias que se regride, diminui-se, encolhe-se, mingüa-se, involui-se até que só se sente o desamparo e o terror, até que só se resta a si e a solidão de si mesmo, branca, láctea, primeva e a cara contra o chão frio. Há dias que esquecemos nossa armadura, casca, carapaça. Há dias em que não nos sobra nem um band-aid. Há dias que a dor é crua, despida, clara e evidente como a boca arreganhada de um bicho que já nos arrancou um grande pedaço. Há dias inconsoláveis e tristes como poucos, em que esquecemos dos treinamentos de prevenção de incêndio, alagamento, terremoto, tsunami, onde não conseguimos lembrar para que lado diabos ficava a saída de emergência, nem o que fazer em caso de acidente. Há dias que vêm sem barra anti-pânico, sem freio de mão, sem alavanca de segurança. Há dias em que todas as coisas das quais não se podia lembrar se reúnem em segredo com tudo de pior que aconteceu e resolvem tomar a vida de assalto. Há dias sem subterfúgios, sem rotas de fuga, sem bote salva-vidas, sem tiro de misericórdia, sem último pedido, sem extrema unção. Há dias em que lágrimas não bastam, soluços não bastam, urros não bastam, só sobra o medo, a tristeza, a decepção, o desconsolo e um enorme e plúmbeo cansaço junto com a sensação inderrogável de fracasso. Há dias que, olha, felizmente acabam.

logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 00:50 de 08.12.2008
comentários (8)

12.11.2008

1985

Foi o ano que eu não vivi, segundo a senhora minha mãe. Acordava às 7, ia para o glorioso colégio São Francisco de Assis em Pelotas, ficava lá 4 horas e meia de olhos bem abertos e prestando muita atenção (eram as únicas horas em completa consciência do dia), voltava para a casa da Vó Nininha - onde morávamos todos – almoçava lautamente e me recolhia para a sesta que durava invariavelmente das 13 às 18:30 na melhor hipótese. Levantava, tomava banho, circulê, uns deveres de casa quando havia, jantar e de novo para o alto do meu beliche (Facelo dormia na parte de baixo – I love ser a mais velha) normalmente antes das 21:30. Lembro só de ter tido caxumba e catapora – bons motivos para faltar aula e ficar em casa dormindo (bota ano estranho nisso) e de mais nada.

O fato é que em dezembro de 1984 eu media 1,55 de altura e em janeiro de 1986 eu contava com incríveis 1,66m. Minha hipófise me nocauteou para me deitar em berço esplêndido enquanto eu crescia, crescia, crescia. Não percebi os ossos esticarem como magirus, não tomei conhecimento da pele que se rasgava – as estrias longitudinais estão aqui para provar pelo séculos dos séculos, amém – não senti as articulações fazendo força para não se desprenderem. Cresci e pronto.

Só que não é mais tão fácil. Crescer agora dá trabalho, no hipófise for you, darling. Crescer agora é um exercício de manter os olhos bem abertos e atentos, de pensar até não agüentar mais, de analisar e reanalisar as coisas (até os sonhos), de varar noites insones e de deixar-se doer, acolher as dores – das mais insignificantes e ridículas (mas não menos horripilantes) até as lancinantes que dão vontade de ficar debaixo da cama encolhida feito um gato, olhá-las bem de perto, entendê-las, localizá-las – ainda que amanhã ela vão se instalar em novo lugar.

As articulações não dóem, os ossos não se quebram, as pele não rasga, mas a minha impressão é de que eu estou em plena expansão.


Em tempo: 1985 - 2009 (será que tem retorno de algum planeta parrudão?)


logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 10:22 de 12.11.2008
comentários (20)