Taí, muito bem dito. @cafein disse no twitter que não finge felicidade. Eu também não. Não finjo, não simulo, não emulo, não faço de conta, não atuo, não forjo, não fraudo, não minto. Não sou uma pessoa de arroubos de felicidade histriônica, não sou arroz de festa, não tô em todas, não gargalho alto, não topo tudo, não tô sempre a fim, não to aí para o que der e vier, u-hu. Até porque eu canso, encho o saco, me irrito, desgosto das coisas e das pessoas, perco a paciência. Não, não acho tudo espetacular, lindo, maravilhoso, fantástico, único, especial, incrível, oh, que emoção e não faço a mínima questão de demonstrar o contrário, muito pelo contrário. Desculpem-me os sensíveis e carentes, minha fidelidade e meu respeito são, sobretudo, a mim mesma. Além do mais, felicidade para mim tem a ver muito mais com estar confortável e ter paz de espírito. Às vezes, pode até ser num lugar barulhento onde todos estejam falando bem alto e festejando, mas confesso que esta é a exceção das exceções . No geral minha felicidade é quieta e pacífica, mansa e calma, uma satisfação interna que é muito mais um calorzinho na barriga do que um saltitar alucinado, muito mais um aconchego bom da vida e uma satisfação pura por estar ali naquele momento do que um festejar contínuo de suas maravilhas. Podem me chamar de bola murcha, sem graça, blasé, eu realmente não me importo. Não tenho dúvida que eu não preferiria ser a entusiasmadinha ou a felizinha da Atma.
Episódio 13 da sexta temporada de Grey's Anatomy. E eu vou guardar para assistir Cristina Yang pra sempre. Na verdade tô pensando em fundar uma religião Yanguiana.
Às vezes o que a gente precisa mesmo é de mais realidade e menos fantasia. Nada como um bom choque de realidade concreta e incontestável, mais realidade e fatos, dados, situações, circunstâncias, concretude, números absolutos, provas, evidências, indícios palpáveis, lógica, materialidade, preto no branco, análise fria, empirismo, matemática, dureza, crueza. Porque a gente sonha e idealiza, lembra do que quer, justifica, cria uma história outra em que a gente escolhe o mocinho, roteiriza, romanceia, ficcioniza, edulcora, enfeita, perfuma, ajeita, muda a luz, escolhe a trilha, põe a culpa nos outros, na puta vida, nos maus, no acaso, no destino, no bispo, no pato, traveste, filtra memória, esquece o que não interessa. Porque a gente fantasia, e vai vivendo de mentira, e vai vivendo bobamente e deixa de viver de verdade. Consciência, sim. Mesmo que ela traga em si e consigo uma versão bem mais triste de nós mesmos e do que a gente escolheu acreditar, mesmo que ela deponha contra nós, mesmo que ela desnude nossos piores medos (aqueles que a gente no fundo sabe que procedem). Mesmo que ela nos diminua e nos mediocrize, mesmo que ela nos apequene e enfeie, mesmo que ela nos desvalore. Consciência para viver a realidade e conhecê-la, para decidir se é boa e se nos serve e se, for o caso, mudá-la para fazer dela o que temos vontade que ela seja.
Insegurança, s.f., é um circo onde somos tudo: equilibrista, palhaço, engolidor de facas, fera, domador, mulher barbada e trapezista. Só não somos dono do circo.
Consciência, s.f., é uma velha sofrida e cheia de dores que tem por olhos imensas lupas caminhando lentamente e com muita atenção por uma estrada que ela tem certeza de que não sabe onde vai dar.
«...contrariamente ao que gostaríamos de acreditar, o amor entre pais e filhos não é incondicional, mas é parecido com os outros amores de nossa vida, tem razões para surgir, para acabar ou mesmo para se tornar ódio.»Aqui, a íntegra. Para pensar, bastante.
«A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir». Mais uma, aqui, já que este senhor parece ter estado sentado atrás do meu divã hoje.
Quando ficamos sabendo de alguém que apaixonou-se despirocadamente e investiiu tudo e se arriscou e se expôs e mesmo com medo de ser partir em dois, ousou atirar-se de cabeça, danem-se as convenções, as expectativas, dane-se tudo, geralmente somos atacados dor dois sentimentos paradoxais: 1) de recuperação de fé na humanidade - tomara que dê certo e que tudo seja bom, porque aí nos convencemos de que, mesmo rarissimamente, essas coisas acontecem; 2) de raiva e de inveja - tomara que não dê certo para que nos tranquilizemos pois, afinal, não aconteceu conosco porque não funciona assim com mais ninguém.
Uma coisa tem me chamado atenção e quero dividir com vocês, para que vocês me digam se é algo que vocês também já perceberam ou se a partir de agora podem se ligar e perceber.
«Acima» de quase todo diálogo/conversa/papo, rola um meta diálogo/conversa/papo que não diz quase nada a respeito do assunto específico discutido, mas sim a respeito do posicionamento daquelas pessoas diante uma da outra e/ou do tema genérico que ali está sendo tratado (ainda que imperceptivelmente).
Esta deve ser uma ferramenta muito utilizada pelos analistas/terapeutas, claro, que são treinados para captar o meta papo (inclusive - e principalmente) da gente com a gente mesmo. Mas eu confesso que as coisas que eu tenho «ouvido» são bem inquietantes, já que as pessoas acabam revelando o que não revelariam, muito possivelmente nem para si mesmas.
Eu adorei os doisposts mais recentes da Belly e o assunto se conecta bastante com a coluna dessa semana da Paradoxo e com algumas conversas com o Alvaro e com algumas sessões bem punks com o terapeuta, então bora lá, deixa ver se eu consigo dividir umas coisinhas com vocês.
Ser aceito é ótimo, ser amado é excelente, não estar sozinho é uma maravilha. Porque a despeito do que possa se dizer de que a gente TEM QUE se bastar e ser feliz, a verdade, convenhamos, é que todos queremos que TODOS nos amem, nos gostem, nos aprovem, nos admirem, nos convidem pras festcheeenhas (nem que seja para aquelas que a gente nem que ir), sintam nossa falta, nos achem maravilhosos. E aí a gente tem duas opções (três, na verdade): ser a gente mesmo, ser um êmulo em constante esforço para agradar todo mundo, ou despirocar e agredir todo mundo porque já que não se pode juntar-se a eles, vença-os pelo cansaço.
Todas as opções têm vantages e desvantagens, para si e para os outros, obviamente.
Quando a gente é um agradador, todo mundo te ama, mas ama aquele êmulo que você inventou. Você se sente amado, mas sabe lá não tão no fundinho que o que eles amam não é você, é o seu esforço de agradar e, então, você se sente amado, mas não se sente; não é abandonado, mas sabe que se a máscara cair, babaus.
Quando a gente é um agressor, todo mundo te odeia, mas odeia a geni que você incorporou. Você sabe que não te odeiam verdadeiramente, odeiam o personagem que você criou como seu anteparo, como seu testa de ferro, e pode viver com a secreta (e confortável) sensação de que SE te conhecessem de verdade, gostariam de você. Neste caso há um puls a mais: se algum doido amar você nessas circunstâncias, bah, aí sim, é amor de verdade.
Quando a gente consegue ser a gente mesmo, não tem mentira atrás da qual se esconder. Quem te ama, ama você, quem não gosta de você realmente não gosta. Isso é bom, mas é ruim e é ruim mas é bom. As pessoas que te amam, te conhecem, sabem dos prós e contras, estabelecem uma relação verdadeira e, portanto, mais difícil e mais fora do controle (não é você que manipula, que compra amor ou ódio, é o outro que gosta ou não gosta). As que não gostam de você não gostam e pronto, você tem que viver com isso. Elas não vão te aplaudir, te apupar, te validar, te apoiar. Elas simplesmente não gostam de você e muitas vezes vão deixar isso bem claro e vai doer (porque, lembra, a gente quer que TODOS nos amem).
Se você for exótico, há quem vá achar você feio. Se você é livre de espírito e resolveu que vai ter várias experiências, há quem vá dizer que você é promíscuo. Se você adora ter papos cabeça, vai ter quem ache você um chato. Se você compartilhar suas angústias existencias, vai ter quem ache você um deprimido chorão. Se você for super sincero e disser as verdades duela a quien duela, vai ter quem te ache um mal educado. E assim por diante.
É o preço que a gente paga para ser a gente mesmo, o preço da desaprovação de alguns que, a meu ver, vale o amor verdadeiro de outros. Basta conseguir fazer esta opção.
A notícia citada no post abaixo, que chamou tanto a atenção da Belly quanto a minha, tem um ponto que eu acho crucial. Ao que parece (não dá pra ter uma idéia muito boa dos reais resultados de uma pesquisa lendo vinte e poucas linhas), o «grande problema» das comédias românticas é muito menos a idéia de que a gente pode achar um grande amor e se apaixonar loucamente (isso realmente acontece) e muito mais a idéia de que depois disso há um happy ever after pelo simples fato de que aquela ali é a sua alma gêmea.
Amar e ser amado requer disposição e trabalheira. De se mostrar e de enxergar o outro, de viabilizar, construir, consertar e concertar, lutar e querer muito. Depois da paixão e dos sparkling diamonds, depois de correr ao aeroporto e evitar que ele vá embora pra sempre, depois de ir a Marselha pedi-la em casamento, depois que a parte hollywwodiana termina, começa o nosso belo filme real.
E a parte hollywoodiana existe? Existe. Tenho eu aqui minha cota de situações encantadoras e que dariam um ótimo seriado da Fox, ou da Sony, ou ainda um filme com a Marisa Tomei ou com a Ashley Judd (Audrey seria pedir demais? Ok). O problema é que não deu material para a segunda temporada, nem para a seqüência do filme de grande bilheteria: o roteiro seguinte é de filme europeu daqueles de pensar, com gente de verdade, cheia de defeitos e medos e carências, que faz merda e se magoa, magoa os outros e tenta acertar - e esses a gente sabe que nem todo mundo curte com sorriso no rosto e pipoca na mão.
Há dias em que a vida dói mais, em que custa mais viver. Há dias em que finalmente a força falta e desaba-se sobre si mesmo, implode-se a si, derruem-se os alicerces, cedem as bases, dobram-se os joelhos, apequenam-se as mãos, encolhem-se os ombros, murcham-se os olhos, paralisam-se as pernas. Há dias em que as pernas já não se conseguem pôr-se a andar, não respondem, exaustas, trôpegas, inertes, não se firmam, não se prestam a mais nada ainda que, ainda como, ainda se. Há dias em que basta de desculpas, justificativas, bons modos, intenções, vontade e ânimo. Há dias em que o mundo te olha e pergunta as mesmas perguntas de sempre e não sabe-se mais nada daquilo, esqueceu-se da fórmula, do verbo, do jeito. Não se tem mais jeito, e se algum dia jeito houve, não se sabe. Há dias que se regride, diminui-se, encolhe-se, mingüa-se, involui-se até que só se sente o desamparo e o terror, até que só se resta a si e a solidão de si mesmo, branca, láctea, primeva e a cara contra o chão frio. Há dias que esquecemos nossa armadura, casca, carapaça. Há dias em que não nos sobra nem um band-aid. Há dias que a dor é crua, despida, clara e evidente como a boca arreganhada de um bicho que já nos arrancou um grande pedaço. Há dias inconsoláveis e tristes como poucos, em que esquecemos dos treinamentos de prevenção de incêndio, alagamento, terremoto, tsunami, onde não conseguimos lembrar para que lado diabos ficava a saída de emergência, nem o que fazer em caso de acidente. Há dias que vêm sem barra anti-pânico, sem freio de mão, sem alavanca de segurança. Há dias em que todas as coisas das quais não se podia lembrar se reúnem em segredo com tudo de pior que aconteceu e resolvem tomar a vida de assalto. Há dias sem subterfúgios, sem rotas de fuga, sem bote salva-vidas, sem tiro de misericórdia, sem último pedido, sem extrema unção. Há dias em que lágrimas não bastam, soluços não bastam, urros não bastam, só sobra o medo, a tristeza, a decepção, o desconsolo e um enorme e plúmbeo cansaço junto com a sensação inderrogável de fracasso. Há dias que, olha, felizmente acabam.
Foi o ano que eu não vivi, segundo a senhora minha mãe. Acordava às 7, ia para o glorioso colégio São Francisco de Assis em Pelotas, ficava lá 4 horas e meia de olhos bem abertos e prestando muita atenção (eram as únicas horas em completa consciência do dia), voltava para a casa da Vó Nininha - onde morávamos todos – almoçava lautamente e me recolhia para a sesta que durava invariavelmente das 13 às 18:30 na melhor hipótese. Levantava, tomava banho, circulê, uns deveres de casa quando havia, jantar e de novo para o alto do meu beliche (Facelo dormia na parte de baixo – I love ser a mais velha) normalmente antes das 21:30. Lembro só de ter tido caxumba e catapora – bons motivos para faltar aula e ficar em casa dormindo (bota ano estranho nisso) e de mais nada.
O fato é que em dezembro de 1984 eu media 1,55 de altura e em janeiro de 1986 eu contava com incríveis 1,66m. Minha hipófise me nocauteou para me deitar em berço esplêndido enquanto eu crescia, crescia, crescia. Não percebi os ossos esticarem como magirus, não tomei conhecimento da pele que se rasgava – as estrias longitudinais estão aqui para provar pelo séculos dos séculos, amém – não senti as articulações fazendo força para não se desprenderem. Cresci e pronto.
Só que não é mais tão fácil. Crescer agora dá trabalho, no hipófise for you, darling. Crescer agora é um exercício de manter os olhos bem abertos e atentos, de pensar até não agüentar mais, de analisar e reanalisar as coisas (até os sonhos), de varar noites insones e de deixar-se doer, acolher as dores – das mais insignificantes e ridículas (mas não menos horripilantes) até as lancinantes que dão vontade de ficar debaixo da cama encolhida feito um gato, olhá-las bem de perto, entendê-las, localizá-las – ainda que amanhã ela vão se instalar em novo lugar.
As articulações não dóem, os ossos não se quebram, as pele não rasga, mas a minha impressão é de que eu estou em plena expansão.
Em tempo: 1985 - 2009 (será que tem retorno de algum planeta parrudão?)
A pessoa sonha que o ex-marido está cozinhando, na sua casa, um jantar para você e seu namorado.
O que eu gosto no meu sub/in-consciente é que quando eu tô meio renitente, ele desenha.
Beleza, aê.
Tenho 35 anos e já tenho idade suficiente para saber o que me serve e o que não. Felizmente já não aturo mais desforo, mas em vez de mandar à grandissíssimaputamadrequelosparió em alto e bom som, ando noutra direção. Já entendi que na vida se travam incontáveis batalhas todos os dias: com os cabelos brancos, com o que se tem a fazer nas próximas 36h só dispondo de 24h, com o trabalho repetido, com o manobrista achincalhador, com o caixa da padaria mal humorado, com a solidão e as saudades, com a família e seus conflitos insolúveis, com o DVD player doido, com o chefe desprivilegiado intelectualmente, com o síndico nazi-fascista, com as dúvidas e os medos, com a vizinha enxerida, com o colega preconceituoso, com a rejeição e a tristeza, com a celulite e a flacidez, com as passagens aéreas pela hora da morte, com o sedentarismo, com milhares de gente mal educada, com o porteiro idiota, com o frentista babão, com quem quer que eu lhe leve nas costas, com a geladeira vazia, com a pilha de livros ao lado da cama, com a conta bancária, com a carência da avó, com a vacina da gata, com a restrição calórica e a tendência a engordar, com a porta quebrada da lava-louças, com o carpete, com os azulejos soltos, com as manchas no rosto, com as cicatrizes nos pés, com as perguntas da analista, mas se eu for lutar todas, vou eu virar eu um despojo de guerra. Há coisas importantes e há coisas menos importantes. Há as que farão diferença na minha vida e há as que não farão. Lutarei, pois, pelas que fazem e farão alguma diferença. Às demais, paciência, agenda, tecla FDS, elevação espiritual, PT saudações, beijos nas crianças, au revoir. Também já aprendi que ninguém é perfeito, mas que com algumas pessoas eu não consigo conviver. Pelo menos não de muito perto. Com outras, nem de bem longe. O problema é a minha limitação, não as delas. Tem coisas com as quais eu não consigo lidar e, ao tentar lidar, fazem aflorar, como diria Bob Jeff, os meus mais baixos instintos. Daí que, na falta de vocação para a santidade, tchau e cara de paisagem.
É fato que um relação se constrói. É fato que não há amor à primeira vista que vá se sustentar assim nas alturas, nos píncaros da emoção pelo felizes para sempre dos séculos amém. Não vai. Vai chegar uma hora que a idealização toda que a apaixonite provoca vai embora e você vai enxergar quem é aquele verdadeiro ser. Com suas limitações, com suas feiúras, com suas, vamos lá, monstruosidades. E talvez - talvez, veja bem - você vá amar esse ser, não apesar de tudo isso, mas especificamente por isso tudo: por sua humanidade, fragilidade, coragem, superação, capacidade de lidar com as limitações insuperáveis, bom humor diante do incontornável. E é só depois de ver a feiúra toda, ou boa parte dela, que o amor pode se habilitar.
É fato, também, que nem toda relação se constrói. Há as que não tem material em comum para serem construídas; há as que têm material em comum mas não tem o tchãns. Tchãns, sabe? Todo mundo sabe. Mas de que ele é feito? Pois meus amigos, é um dos grandes mistérios do universo, par e passo com a santíssima trindade e o cabelo da Hebe. O Tchãns é uma combinação química de feromônios e surpresas, de expectativa e correspondência, da dobrinha embaixo do lábio com o erre pronunciado de um jeito que ninguém mais fala, de um tremor adolescente na parte interna do joelho com uma vontade de contar como a capa daquele livro me lembrou você. Isso e muito mais.
O que também é fato é quem sem tchãns, não rola. Ou rola - maaaaal pra caramba e por pura teimosia, ou seja, por pouquíssimo tempo, ou muito tempo, depende do seu conformismo e/ou patologia. Por mais que a gente queira finalmente gostar de quem gosta da gente, valorizar quem nos dá valor, amar quem declara seu amor aos 4 ventos, fica sempre a sensação de que o mundo ao redor é de plástico. Fosse fácil assim, né, a gente decidia a critura e pronto. Mas não, tem o tchãns. Ou não.