27.09.2010




Tenho em mim um amor bonito, um amor que me espreita do alto dos prédios, do topo dos prédios para os quais ninguém mais olha, só eu, com os olhos cheios das estrelas do dia e da noite. Tenho um amor bonito que acende as luzes das janelas no escurecer da tarde, que esvoaça as cortinas numa saudação invisível a todos os demais. Tenho um amor bonito que me vela o sono, que encosta seus cílios na pele do meu rosto quando quer sentir meu cheiro, que caminha de braços dados comigo mesmo depois que já foi embora, que me põe nos lábios todos os dias as pegadas de sua boca. Tenho um amor bonito que não esmaece, não amarela as folhas, não enfraquece, porque sabe meu nome, porque sabe meu silêncio, porque sabe todas minhas palavras secretas. Tenho um amor bonito que tem os dedos entre os meus cabelos e a mão sempre ao redor da minha cintura, seus olhos marejam e só eu percebo e meu coração se infesta de uma comoção indizível e delicada a cada sorriso seu, a cada lágrima disfarçada, a cada tom da sua voz. Tenho um amor bonito que põe no céu sempre uma lua cheia e no ar um perfume de maresia e ondas, seus sapatos estão sempre sujos de areia e ele emudece de repente e eu sinto seu olhar dentro de mim, onde só existe mesmo eu e tudo mais que ninguém mais vê, ninguém mais sabe. Tenho um amor bonito que impede que eu desista, que eu me canse, que eu entristeça ou desespere, que eu envelheça, me amiúde ou morra. Tenho um amor bonito que me reinventa para mim mesma, que me mostra cada vez a minha face mais exata, o meu corpo mais inteiro, o meu passo mais firme e certo. Tenho um amor bonito que não acaba mais.





logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 19:49 de 27.09.2010
comentários (4)

26.06.2010

Quando quase esqueço que tenho fome






Tem dias que a vida leva um susto, soluça e pára no ar, meio anestesiada, meio ébria, meio incrédula de si. Suspendem-se as convenções e protocolos, interrompe-se seu curso e por alguns instante nada "tem que ser", nada é óbvio ou inevitável, nada está decidido ou é certo. As escolhas sobressaem, existem alternativas, dúvidas se evidenciam e no meio do mundo em câmera lenta nos permitimos sentir, querer, desejar, admitir o que em nós não se encaixa perfeitamente, não atende as expectativas, não passa pela cabeça de ninguém que possa existir. Naquele instante somos nós e todas as possibilidades descartadas, embotadas, abortadas, sabotadas, renunciadas. Principalmente aquelas escolhas que fazemos questão de esquecer, que fazemos de conta que não existem e que naquele instante - só naquele instante - nos dão a certeza de que nos fariam parar de sentir fome.




logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 21:13 de 26.06.2010
comentário (1)

01.04.2010

E não era mentira

E ela esperou e esperou e esperou que a chuva cessasse, que o dia amanhecesse, que o sol abrisse. No peito a paz e a guerra, o medo e o vão, o pulo e o chão, o ar e o aço, esta contradição de felicidade aterrorizada que têm sempre todos os seus começos. A noite lhe trouxe de volta o abraço dos irmãos em sonho, um avô que acenava de longe de partida para a pescaria, a voz do pai, o cheiro da casa da avó, a mãe dividindo com ela uma omelete de batata frita. E mesmo em sonho ela soube, bem lá no fundo de si, antes de qualquer coisa, antes da primeira claridade do dia, que a vida recomeçava mansa e ainda débil, recém parida. E veio a manhã, tímida e cinza, úmida e com cheiro de plantas, cheia de pássaros e sons de dia. A chuva parou e o sol irrompeu quente e grandioso e tomou a vida nova nos braços. Ela abriu os olhos e fitou a paisagem por muito tempo. Queria ter certeza de lembrar desse momento para sempre.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 12:33 de 01.04.2010
comentários (4)

16.07.2009

Noite de Bethania


Como esta noite findará e o sol então rebrilhará, estou pensando em você.
Onde está o meu amor? Será que vela como eu? Será que chama como eu? Será que pergunta por mim?
...

Estamos cá dentro de nós, sós.


logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 22:58 de 16.07.2009
comentar (0)

18.02.2009

Alívio

Há dias em que a vida nos dói mais, é fato. E o recurso de que dispomos é sempre o mesmo: distrairmo-nos com o que não dói, com grandes metas, com paleativos, disfarces sofisticados, sonhos de consolação, planos mirabolantes que preenchem o(s) dia(s) com a sensação de relevância. Um Tylenol, portanto, faz bem. Mas há dias em que a vida nos dói mais e alguém nos diz exatamente o que precisávamos ouvir: que para além ou aquém das distrações, metas, paleativos, disfarces, planos, o que importa é esse de nós que dói, que ama e é amado. E a dor passa.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 00:51 de 18.02.2009
comentários (2)

13.02.2009

A vida que se vive

Eu imagino o som da tua respiração, o cheiro que tu tens dormindo, adivinho a cor das tuas pálpebras às três da manhã e a temperatura do teu pé se encostasse no meu. Rio enternecida ao pensar no teu sorriso logo cedo, dividindo comigo a pasta de dentes, a torneira, o sono e o cabelo amarfanhado. Rio de pensar que só mais tu no mundo diria «cabelo amarfanhado». Penso que em algum lugar deve haver essa vida sendo vivida todos os dias por quem não sabe dela, por quem a vive sem vivê-la e tenho pena, uma pena triste que se chamaria dó se eu ainda fosse uma moça pelotense, mas eu não sou, como tu sabes. E penso que eu a viveria, essa vida, todos os dias, todas as noites, todas as manhãs, maravilhada e cheia de espanto como uma criança que vê tudo pela primeira vez: teu peito esvaziando-se de ar, teu sono de menino, teus olhos cerrados num sonho, teu corpo tateando em busca do meu, os hortelãs e as mentas dos dentes brancos, a água nos olhos inchados, os fios de cabelos que crescem quase ao contrário na tua nuca, as palavras que expropriamos do resto do mundo.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 01:19 de 13.02.2009
comentários (7)

21.01.2009

Conspiração



Salvador Dalí
Eu acredito piamente que deve haver uma conspiração quântica para fazer com que coisas desaparecidas há muito, muito tempo, reapareçam cruelmente num determinado momento, do nada, em lugares que a gente mexeu todos os dias nos últimos anos e nunca estiveram lá, com a mais absoluta certeza. Mas aí um belo dia sabe-se lá porquê (aqui deve entrar uma equação tão cheia de variáveis que seria necessário um supercomputador que faria os da previsão meteorológica parecerem relógios-calculadora) reaparecem, plim, para nos darem um enorme murro no meio da cara. Just like that. E aí primeiro a gente sente o sangue nos fugir das faces e das mãos e direcionar-se T.O.D.O para o estômago, faltam forças, falta chão, falta profundidade em tudo que nos cerca, o mundo vai ficando progressivamente monocromático e contrastante até aquele ponto que antecede o desmaio. Aí, se a gente for forte o suficiente, consegue achar entre as coisas que se movem como se derretessem tal como uma tela do Dalí, um lugar para sentar e evitar se esborrachar no chão feito um saco de batatas. Feito isso, a cabeça está girando, mas só a parte de dentro dela. A gente tenta obter um referencialzinho que seja e tudo na volta desaparece. Só AQUILO existe. Aquilo e tudo que aquilo trouxe de volta, como se aberto estivesse um ralo para outra dimensão do tempo e do espaço que acaba de lhe sugar pra dentro. E então você está lá, de volta lá, naquele dia, naquela hora que você julgava perdidos para sempre, com aquela luz e aqueles cheiros, com os rostos das pessoas vívidos e perfeitos, as vozes claras, você de volta naquele seu corpo, dentro daquela roupa, daqueles sapatos, ostentando aquele sorriso que não doía, de posse daqueles olhos brilhantes cheio de inocência imbecil, com o peito rebentando de felicidade e certezas tão absolutas quanto cegas, coisas essas que você só saberia muito mais tarde, muito mais tarde, quando numa tarde de sol você abrisse uma gaveta que você tinha aberto incólume todos os dias até então e encontrasse aquele pequeno pedaço de você. Perdido. Para sempre.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 16:37 de 21.01.2009
comentários (7)

09.01.2009

Y entristeces de pronto como un viaje

Porque teve medo, porque teve medo e estava triste, sabia que a situação exigia medidas extremas. Precisava de um poeta, de um poeta que lhe tocasse a alma. Então foi até a estante e tomou o livro entre as mãos, solene como quem está prestes a desvendar um segredo e ser salva e leu:

«Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.»


Grossas lágrimas escorreram pelo rosto, o corpo acolhido e manso, abraçado pelas palavras, compreendido em sua angústia crestada e apascentado finalmente. Algo no mundo a observava e dela inteiramente tinha consciência. Fora salva não por compreender, mas por ver-se compreendida, de entendimento e de pertença.


O poema é o Poema 12, de Veinte poemas de amor y una canción desesperada, Pablo Neruda. .
logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 00:18 de 09.01.2009
comentários (2)

13.10.2008

O que há em Satolep

Cheguei a Satolep ao meio dia do sábado e Satolep era Satolep. As ruas úmidas, o frio que contrariava - como sempre - a previsão, a chuva, o cinza, as paredes molhadas, o calçamento de pedra (e nuvem, Vitor, sempre nuvem), o meio fio que sempre nos acompanha fiel como um cachorro pétreo. Estava lá Vó Nininha. Um pouquinho menos magra, um pouquinho menos triste e só isso já foi tão bom que não precisava mais nada. Estava lá Paula, tão feliz, tão feliz de me encontrar. Não que ela tenha dito isso, mas eu sei. Sei porque somos feitas do mesmo material, no mesmo molde. A gente (ainda) não aprendeu a abraçar e dizer que tá feliz de se encontrar, ou que estava com saudade (só muito às vezes). A gente fica eufórica já dias antes, como se viesse morar em nós uma felicidade fervilhante, de formigas elétricas, de bem querer, de voltar pra casa na chegada da outra. E quando a gente se vê, o olho brilha, o riso solta e a gente fica saltitante e com 5 anos (ambas). Estavam lá a Bê, a Aline e a Indaia e é tão bom ter uma família maior. Como eu me sinto em casa perto delas, meu deus. Elas fazem parte do minúsculo grupo dos meus seres humanos abraçáveis, aconchegáveis, para os quais não se precisa dizer nada. Estava lá Msr. Pai que levou uma caixa de sorvete de doce de leite da Zum Zum para mim e Paulinha em pleno salão de beleza, com direito a canudinho de biscoito e tudo. Se isso não é ser mimada, eu não sei o que é. Tava lá Mme Mãe e Antônio, com sorriso e galinha de casaca assada no forno e salada de maionese. Tava lá o presépio da minha infância, guardadinho, que agora vai dar o ar da graça no Natal em produção digna de oliúde (depois eu mostro pra vocês). Estavam lá Facelo, Cris e Téo, o sobrinho cão mais fofo. Ter eles por perto é um seguro de vida. Tava lá cunhado mimoso, caindo de cansado e faminto, mas bom companheiro na hora de devorar massa e tomar vinho. Estavam lá Fátima e Cátia, mais família, mais aconchego. Cátia mais irmã que nunca, coisa mais amada. E estava lá, por alguns segundos, vô Paulo, quando o olho azul dele entrou dento do meu olho no dele no meu no dele, quando por pouquinhos instantes eu tive a impressão (falsa, pode ser, mas que me importa) que ele sabia que eu estava ali, que ele viu o meu olho dizendo com tudo que eu posso dizer de mais bonito, mais inteiro, mais de verdade, sinto a tua falta, vô, lá naqueles poucos segundos, foi tão bom e tão triste, ele parecendo dizer tô aqui, também tenho saudades, e eu quis tanto que o mundo não fosse assim, que a vida fosse outra, que a gente tivesse outra chance de tanta coisa, mais passarinho, mais pescaria, mais sesta no tapete, mais tudo de novo, que realmente não houvesse um despropósito incompreensível desse, que quem não merece não sofresse, que bondade fosse imunidade, que o mundo obedecesse uma lógica qualquer, qualquer que fosse. Mas não.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 09:54 de 13.10.2008
comentários (10)

29.09.2008

E então

E então é domingo e tem um filme bom na TV, mas você precisa dormir e não tem sono algum, toma um copo de vinho, ouve Adriana dizer que o que você demora é o que o tempo leva, vai para o chuveiro e chora uma dor contida que ninguém conhece, ninguém suspeita, chora desamparada e pequena como você tem medo que alguém descubra que você é, depois vai para a cama e fica de olhos abertos no escuro, seus olhos abertos no escuro como num mar negro pensando na vida que falta e na vida que resta e então já é de manhã e o cheiro de café é bom, vem a sede e o sol, e é hora de colocar a música bem alta e correr, correr, correr muito, sentir o coração batendo no rosto, nos dedos, na barriga, cantar alto uma música e depois outra e mais outra, deixar o suor escorrer nas costas, os pés doerem e os pensamentos se resumirem ao ritmo, e depois a gata para alimentar, o dia para viver, o carro para mandar lavar e a nova marca de xampu e os sonhos que se esqueceu, comida light, vento no rosto, vestido rodado, um medo e uma esperança, às vezes uma esperança e um medo, e você afasta a ansiedade e dança, pensa no que colocar na mala, e no seguro do carro e na carta da síndica, liga para a vó, corta o cabelo, respira fundo e reza querendo acreditar que ajuda, come pão com manteiga, se irrita com o carro de som, abre a janela para o sol entrar, acorda com os dedos dos pés formigando, compra uma blusa que acha que não vai usar, vê que a balança não está nem aí para o seu esforço, arruma a cama com lençóis de flor, muda o perfume, usa batom vermelho, quer muito estar perto e está tão longe, se sente só e impotente, aumenta o volume do rádio para espantar a saudade, lembra do cheiro de maresia de madrugada e que tinha um restaurante chinês na esquina, e então você tem 35 anos e passa creme anti-rugas no rosto, creme anti-frizz no cabelo, creme anti-celulite no bumbum, creme anti-manchas nas mãos, creme anti-rachadura nos pés, creme anti-flacidez nos seios e não tem nada para fazer passar as dores que não passam, e a gata lhe ama, e a casa precisa de uma arrumação e as gavetas estão sempre tão sem espaço e a sua vida está sempre sem algo por quase ter algo que realmente importe e então é de novo domingo e tem um filme bom na TV.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 10:03 de 29.09.2008
comentários (11)

11.08.2008

30 dias


A.Notaroberto




O que cabe em trinta dias? Um sonho que já não se sonhava, um riso que não se conhecia, um desejo que não se suspeitava, uma fome que não existia. O que cabe em trinta dias? Manhãs ensolaradas, altas madrugadas, noites frias com um calor que já não se sentia, gargalhadas soltas, carinho cúmplice, gostos tão parecidos e que se diferenciam. O que cabe em trinta dias? Uma de si que não encontrava, um do outro que não percebia, uma vontade que se acumulava, uma vazão que não se continha. O que cabe em trinta dias? Incontáveis beijos, milhares de abraços, músicas, sons, filmes, flores, fotos, gostos, sorrisos, lágrimas, felicidade doce e límpida, um sol dentro, intimidade, espera, paz, cuidados, mimos, vontade da voz, do calor, do corpo, dos olhos, da boca, dos braços, das mãos, da proximidade, das temperaturas, da companhia, do riso, do abraço, do beijo, do pescoço, do peito, do sono, do compartilhar, do dividir, do adormecer, do que ainda está por vir.


(7)30 dias - Jorge Drexler.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 11:36 de 11.08.2008
comentários (4)

06.08.2008

Brincando de deus

TÔ SÓ

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca
mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.


(Hilda Hilst)


**************************


Vamo andá ombro no ombro pelo planeta e sumí? Saí por aí braços dados cantando alto chico buarque, de tranças e roupa de domingo? Vamo comê cachorro quente, tomá coca-cola, depois milqui xeique e ignorá os gritos de oba das celulitinhas? Vamo dormi em rede de perna enroscada, acordá e beijá na boca, mergulhá no mar e lê até anoitecê? Vamo ficá pelado e brincá de geografia, anatomia, cartografia, astrologia? Vamo ri um do outro, tê soluço, confessá as gafe, perdoá os ingnorante, dá comida pros gato, deitá na sombra de uma árvore bem cheirosa e só levantá depois que uma borboleta pousá no nariz? Vamo lê poema um pro outro e brincá de adivinhá qual foi a palavra que trocamo? Vamo comê no mesmo prato e beijá de boca suja? Vamo falar palavrão bem alto e escandalizá as velhinha? Vamo ouvi som alto e cantá tudo errado? Vamo desenhá nas paredes da casa com giz de cera colorido? Vamo saí por aí, de óculos escuro e boné fingindo que somo celebridades? Vamo brincá de não se desiludi, de não vê burrice, vamo sê um pouco burro também, pra variá? Vamo brincá

De deus
De diabo
De tarado
De compositor
De escritor? Que é aquilo de poder lê um monte, escrevê três linhas por dia e acharem que a gente tá trabalhando?
Vamo brincá de médico? Que é aquilo de eu vê nos detalhes o que tem dentro das tuas calça e depois te mostrá o que tem dentro das minha? E de poesia de amor?
Quero de ti somente
O que me darias em segredo
Quero teus cabelos entre meus dedos

Bom dia, leitor. Tô brincando de Hilda Hilst.

(Daqui, há 5 anos.)

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 16:37 de 06.08.2008
comentários (4)

Um quase poema

XVII- (Pablo Neruda)
No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.






Tenho essa fome, essa fome incerta dos teus olhos, da tua pele imprecisa, da tua boca entre as sílabas, do ar que te escapa, do espaço inerte perdido em teus braços. Tenho fome de colher teu riso entre minhas mãos, tocar teus dentes com a língua, cheirar teus lábios logo que amanhece, enegrecer teus cílios no pousar do tempo, conduzir teu corpo ao abandono lento e morno no fundo de mim. Tenho fome de te ensolarar as tardes, de compartir contigo o vento triste das velas, de cometer alegrias tão ínfimas quanto as frestas dos dedos e nos achar naufragados um no outro de volta à superfície e ao sol. Tenho essa fome úmida da entrega completa, dos portos vazios, essa fome submersa das águas, de uma sede renascida e refundada em salivas misturadas, maresia, madrugada alta num silêncio contido de mar. Tenho essa fome itinerante do corpo, uma febre imprecisa calcinante e urgente, terra arada sem chuva, lua nova, cravos de fogo, rosas de sal, viço latente, espera e presente, insaciar.






logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 13:28 de 06.08.2008
comentar (0)

17.07.2008

Hai Kais.

1.
Teu corpo pousa
Sou toda um ninho
Pássaro de sol.

2.
Meu corpo líquido
Tuas mãos mergulham
Infindável cio.

3.
Provo tua boca
Inauguro teus olhos
No mais fundo de mim.


logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 16:34 de 17.07.2008
comentários (4)

27.05.2008

Tanta coisa faz falta.

Eu queria a minha mãe hoje aqui me fazendo pão com manteiga na torradeira, a Paula pra dar a mão na hora do temporal, a Gláu pra me fazer fugir do trabalho e tomar café no 12º andar do prédio e falar de Caio olhando o rio, o Maurício nenê pra eu fazer dormir, a minha vó para ir no centro e tomar lanche na Lobras, o meu avô para jogar dominó, as tardes quentes no Laranjal com bóia de câmera de caminhão do tio Benvindo, as recheadas da Tia Olga, a ginástica ritmica na Afaço, a terceira série no Assis Chateaubriand, a Angeliquinha pra chorar depois da prova da Margil Jaime e sair pela rua cantando Beatles, a Bianca para fazer sonhos com canela, a Cláudia Ferro para ver MTV, comer bolacha Bono de doce de leite e tomar Coca-cola, o Facelo para dividir o quarto comigo, o Lui para me levar pra dar cavalinho de pau no Opala verde 6 cilindros, a Maiquel para sentar ao lado na aula de biologia, a Bel, a Adriana Kruel e a Zozó pra ir comer no vegeta, as fofoletes para ir pra Gramado, a Cátia pra dar carona pra casa depois da aula de Civil, o Ilson pra encher a banheira de espuma, a Isa para desenhar com pontinhos, o Tio paulo para chegar pras festas, o Dindo para ir nadar no Clube Cruzeiro, o sorvete cara ou coroa, o André para andar de moto, a Lika pra dar pedacinho de pão na boca, meu pai para me levar na firma, tio Zé pra desenhar cavalos, o Paulinho pra caçar cigarras, o Daniel e a Zilda para comer araçá, a Cláudia pra me fazer mamadeira e uma cama de cadeiras da copa, a Fabiane Chin pra ir bricar na casa, a Irmã Luísa Maria para me passar pomada no braço dentro da clausura, minha bicicleta verde enfeitada para o desfile da pátria, o André Ferreira para dançar Tirana do Lenço, o Jaime pra dançar Mercedita, a Bê para fazer escova no meu cabelo comprido, o Adriano para me beijar no Mamão com açúcar, a Lisiane para fazer clubinho e comer goiaba verde. Nunca mais, nunca mais.

Ramilonga, Vitor Ramil.

logo
Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 10:36 de 27.05.2008
comentários (13)