13.02.2009

A vida que se vive

Eu imagino o som da tua respiração, o cheiro que tu tens dormindo, adivinho a cor das tuas pálpebras às três da manhã e a temperatura do teu pé se encostasse no meu. Rio enternecida ao pensar no teu sorriso logo cedo, dividindo comigo a pasta de dentes, a torneira, o sono e o cabelo amarfanhado. Rio de pensar que só mais tu no mundo diria «cabelo amarfanhado». Penso que em algum lugar deve haver essa vida sendo vivida todos os dias por quem não sabe dela, por quem a vive sem vivê-la e tenho pena, uma pena triste que se chamaria dó se eu ainda fosse uma moça pelotense, mas eu não sou, como tu sabes. E penso que eu a viveria, essa vida, todos os dias, todas as noites, todas as manhãs, maravilhada e cheia de espanto como uma criança que vê tudo pela primeira vez: teu peito esvaziando-se de ar, teu sono de menino, teus olhos cerrados num sonho, teu corpo tateando em busca do meu, os hortelãs e as mentas dos dentes brancos, a água nos olhos inchados, os fios de cabelos que crescem quase ao contrário na tua nuca, as palavras que expropriamos do resto do mundo.

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Coluna: Madame Bovary
por Ticcia, às 01:19 de 13.02.2009
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