É nada
Escrevo-te a meio da noite, depois do sono e de algumas lágrimas, depois do medo paralisante, das idéias macabras, naquela hora precisa em que um dia quente finalmente arrefece, quando se ouvem pequenos grilos, um carro que acelera longe, passos distantes e vozes confundidas que entram pela janela. A lua invade a sala e me ignora, a mim e todas as outras parcas luzes insistentes noite adentro, enquanto a cidade toda dorme alheia ao desassossego, às dúvidas, às certezas, ao desconhecido. Escrevo-te porque rompi a impossibilidade de dizer, porque transpus de alguma forma um limite, cheguei a um entendimento ainda pouco definido e claro. O que sei é que restei eu e isso tudo: essa vontade de encontrar-te acima das pequenas coisas, como milhares de quilômetros ou dois continentes, feridas, dores, cicatrizes, perdas, desconsolos, pedaços de vida que são estranhamente partes de nós. Restei eu e meus braços, meus olhos abertos no escuro, meu corpo desassossegado longe do teu. Escrevo-te finalmente porque te espero, pequena e frágil, a meio da noite, esperando que amanheça para que a vida siga e te traga para perto e eu possa dormir de novo finalmente sobre teu peito, eu de volta a essa de mim em paz que se faz junto de ti.
Elis me diz que pode ser que não venhas mais, que não voltes nunca mais. Mas afinal, ninguém volta. A gente segue indo e indo, mesmo que às vezes aos mesmos lugares e quem a gente encontra, se encontra, são outros que encontram outros de nós mesmos.