perdida na noite
Com esse tempo chuchu beleza que faz nessa cidade varzeana - o calor super bafejante úmido, fervente e gosmento como o hálito do capeta
himself -, a Enxaqueca veio dar o ar da graça gritando um VOLTEI! triunfal, sacudindo sua longa capa negra forrada de cetim vermelho como uma versão carmesim da Malévola - no original,
Maleficent, a minha personagem Disnêy favorita, ao lado do gato da Alice
(Chesire Cat). Depois do habitual coquetel de remédios, a deitadinha básica para que eles façam efeito e o sonho super-real, mais vívido que a própria vida:
Uma praia, que tem por característica o fato da rapidez na mudança das marés. Você está sentado faceiro e do nada vem uma super-seqüência de supertsunamis fortíssimas de água muito pura e cristalina (e salgada). As pessoas que freqüentam a praia o fazem exatamente por conta dessa característica louca das marés, de mudarem muito rápido e muitas e muitas vezes ao dia. A praia tem uma espécie de seguidores aficionados, e eles entendem que a sujeição e resistência às mudanças das marés são uma espécie de ritual espiritual. Daí que muitas e muitas pessoas vão à praia somente para esperar as marés furiosas e a elas resistirem. Algumas levam apetrechos para se fixarem às pedras que ficam próximas. Bem, no sonho hiper-real nessa praia esquisita onde estava fazendo turismo, não para me iniciar espiritualmente e sim para assistir os aficionados se sujeitando às marés, sucedeu-se que ajudei uma mulher mais jovem que nunca vi antes a não ser levada pela maré e, em seguida, perdi alguma coisa sem valor intrínseco algum mas fundamental para executar algo que era necessário - uma chave de alguma coisa. A maré levou: desânimo profundo e certeza de nunca mais ver a chave. Quando subiu de novo, a maré trouxe a chave. Mas precisei ser
muito rápida e despender muita força física para conseguir pegar a chave antes que ela se fosse de novo.
Sei que o sonho é de uma patetice ímpar. Mas a sensação. Ah.
Aí você está arrumando a casa, o quarto, o armário, porque conseguiu criar um caos na sua vida nos últimos quatro meses. Resolve que vai colocar todos os cabides com roupas de calor e meio-calor numa das portas de cabide e, na outra, só os frio e meio-frio. Parece óbvio. Nesse transplante organizacional, você descobre que tem nada menos do que seis vestidos pretos. Alguns deles nem usados ainda. Seis. Você se pergunta, 'como é que isso foi acontecer?' Ignoro.
Quer parar de comprar roupa? Organize seu armário.
Sem falar que arrumar armário tem momentos hilários. As coisas que você vai descobrindo lá dentro. Desde estampas inacreditáveis (no mau sentido) até modelagens malucas que lhe fazem pensar no que diabos você estaria pensando quando comprou - pior, usou! e muito! - aquilo.
A conclusão é que você descobre que ficou adulta - realmente adulta, não somente adulta para fins penais - quando, em vez de privilegiar a exibição descarada de suas formas femininas como um neon rosa piscante, as suas roupas buscam sobretudo emprestar classe, elegância e, se possível, um efeito alongador. Seja porque são as roupas adequadas ao trabalho, ou porque você se sente mais confortável e feliz, ou mesmo porque tudo no seu corpo está desabando e se desfazendo como um bolo abatumado e desandado. Às vezes, todas as opções ao mesmo tempo.
Mas os biquinis da brasileira continuam sendo os de amarrar no ladinho.
A finesse não chegou à beira-mar. Grande novidade.
Tem uma
sacola de livro comemorativa sendo vendida pela Cosac&Naify que me faz salivar. Tem também
o livro da Mme. Chanel, a mulher que criou a moda como a conhecemos. Você gostou? Eu gostei. Só não gostei do preço.
Lá vou eu de volta pro armário.
Wish me luck. Depois dos seis (seis não! sete! tinha contado errado) vestidos pretos, qualquer coisa pode sair dali de dentro.
Era mais divertido quando eu era pequena e entrava nos armários, em vez de arrumá-los. Era mais divertido ir à praia quando era criança, que não precisava cuidar das malas e da alimentação da família toda, o Sr. Consorte inclusive.
A independência é uma coisa que acaba com a independência da gente.