Porque hoje choveu no fim de tarde e tudo escureceu, as árvores balançavam parecendo que iam dobrar e raios lindos cortaram o céu e trovões estouravam e faziam meu coração bater mais forte e porque para chegar ao carro eu tive que tirar a sandália e correr no vento e na chuva, descalça e ensopada sentindo as pedrinhas grudarem na sola do meu pé e depois sentei dentro do carro, molhada e com o caração aos pulos e chorei bem alto, chorei muito, olhando a chuva lavar as folhas grudadas no pára-brisa. Porque às vezes eu tenho esse medo estranho e oco, um medo de fim dos tempos, de desespero e escuridão, como se não desse tempo para mais nada e tudo fosse definitivo como uma grande enxurrada que devasta tudo, arrasta tudo e não deixa nada como era antes e fico sem saber se eu quero que a chuva passe ou se quero que ela me carregue junto.
Hoje é o primeiro dia dos meus 35 anos e para este ano eu quero conservar a paz de espírito adquirida, finalmente, com esforço e persistência. Quero meus amigos, sempre, na medida que também os meus amigos me queiram e nas condições que sejamos capazes de darmos uns aos outros o que precisamos e recusarmos uns aos outros sermos aquilo que não somos. Quero a minha família, complicada às vezes, como são sempre todas as famílias, mas cada vez mais como um grande lastro de amor, de carinho, de companhia e de antídoto para a miséria oca do mundo, as pessoas entre as quais eu sou mais feliz. Quero meus pais, meus irmãos, meus sobrinhos, minha avó e meu avô - que ontem me deu o presente mais lindo de todos - reconheceu a minha voz e me desejou feliz aniversário sorrindo. Quero as minhas mãos cada vez mais dignas das coisas que me proponho a fazer e dos sonhos que eu quero realizar, meus olhos sempre mais preparados para ver o que realmente importa, minha boca sempre à espera de um beijo que chega, meu peito aberto ao amor e ao entusiasmo que valem a pena. Quero a minha vinha vida na medida e à medida que eu a for construindo, sem motivos para terminar o dia chorando, cada vez com mais razões para acordar feliz, cada vez mais certa de quem sou eu, de onde eu vim, do que e de quem eu quero e mereço, com o amor simples e verdadeiro de quem me ama, sem precipícios e tempestades, se possível, com asas fortes e abrigo seguro, se for o caso.
Aos queridos que mandaram mails, SMS, vou responder com calminha cada unzinho, amei tanto, vocês me fizeram muito feliz. Obrigada pelos telefonemas, presentes lindos, por estarem aqui comigo, andando a meu lado, me fazendo mais forte e melhor, emprestando suas asas, me carregando no colo, todos os dias. Beijos.