Quintetos estranhos
Tenho um sorriso secreto. Não peça para mostrar, não consigo. Ele vem, na hora mais imprópria, e se presenteia para a pessoa que olhar e conseguir ver.
Só que, para isso, é obviamente necessário cumprir duas premissas: 1) olhar para mim e 2) efetivamente conseguir me ver.
Quase ninguém consegue.
Minhas reações racionais são irracionais. Aquilo que você vê e algumas vezes toma por frieza duplamente decantada e outras não entende, é puro autocontrole.
Há um id imenso, pantagruélico e incrivelmente espírito-de-porco sendo laboriosamente conduzido por um superego neurastênico que praticamente não dorme. Às vezes o id se solta e comete um monte de insanidades pueris. Quase ninguém percebe. Mas é.
Procuro conhecer tudo no meu próprio corpo. Observar o efeito do tempo, das neuroses, das alegrias, das experiências. Ver o que eles fazem de bom e de ruim na postura, na textura da pele e do cabelo, no estado dos órgãos, na expressão dos olhos, na coloração dos dentes. Eu me sei. Ao menos por fora.
Quando o livro é bom, começo a ler e paro. Para que ele não acabe. Aí leio aos pouquinhos bem pequenininhos, aos farelinhos. Até que essa coisa-pouca aborrece e leio tudão, com o contentamento sôfrego de quem ficou esperando e desejando e esperando e desejando. Provoque sua sede até não agüentar mais, lembram?
Tenho medos grandes e bem-alimentados. Uma porção deles. Curiosamente, é por causa disso que consigo enfrentá-los: conheço-os como o meu corpo. Ao menos por fora.
Gostaria que a
Dona Lafetildes e sua
Nervocálmica Irmã respondessem. (Mas acho pouco provável.)
Eu quero uma casa no campo.
Eu gosto de gente grande, gente larga, gente espaçosa – por dentro - gente com varanda, cobertura, pátio e vista, gente ampla, gente ladifúndia – produtiva ou não – gente crescida e crescente, gente expandida, expansiva, gente onde cabe gente dentro, gente em que a gente pode se hospedar, pode morar, pode deitar e rolar, gente onde há vagas. Tem muita gente JK no mundo, sabe? Onde a gente tem que ficar regulando por qual porta entra e por qual porta sai sob pena de claustrofobia das brabas, ou de se estabacar contra uma quina. Que coisa irritante essas gentes em que os armários não cabem nada, onde não há espaços para livros, onde não se pode cozinhar sob pena de empestar até o banheiro, onde tudo é problema, até o seu guarda-chuva, já notou? Um saco. Eu não sei vocês, mas eu só de bater o olho, já sei se estou diante de gente sítio com piscina ou quarto e sala com fosso de luz. É batata. Tá certo que quem nasceu para puxadinho, não vai chegar nunca à cobertura, mas puxa, pode desentulhar o ambiente, pintar as paredes de branco, jogar fora as tralhas, os lixos, as tranqueiras e ver se o ambiente fica arejado e com espaço para circulação, é ou não é? Por outro lado, meu amigo palácio, cuidado com os hóspedes.