É tradicional fazer desejos e traçar metas para o ano que se anuncia. Mais tradicional até do que entrar o ano vestindo branco, roupa nova ou íntima com cores determinadas para atrair o que se deseja. Já fiz muito isso, mas depois de uma certa idade, passei a perceber o tempo como um continuum. Meu tempo é mais pontuado pelas quatro estações do que pela contagem oficial - respeito a contagem oficial e a utilizo, mas ela não me transmite a sensação de ciclos que as mudanças climáticas (que, apesar de tudo, ainda existem, agradeço pela gentileza) tão facilmente me despertam - e, por conseqüência, a passagem de ano deixou de me mobilizar como fazia anteriormente.
Reconheço, porém, que a perspectiva da chegada do novo ano com certeza ativa, na maioria das pessoas, a idéia de final de um ciclo e começo de outro, tão claramente quanto representam para mim as mudanças climáticas. E, francamente, a maioria tem razão: é mais fácil e talvez mais produtivo fazer retrospectivas a cada doze meses do que a cada quatro.
Seja como for que você perceba a passagem do tempo e a sucessão de ciclos na sua vida, faço a sugestão de que, nos dias que virão, você beije mais a pessoa no espelho. Olhe mais para ela, não para procurar rugas, manchas ou quilos a mais: olhe nos olhos dela, como se fosse a pessoa que você mais ama no mundo. Não um amor naïf, algo como darei-tudo-o-que-ela-pensar-em-pedir-só-para-que-não-me-incomode. Um amor doce porque maduro, que saiba repreender com suavidade e orientar com docilidade, ainda que com firmeza.
Quando procurava algo para ilustrar este texto, encontrei várias de crianças pequenas beijando sua imagem no espelho. Achar adultos fazendo isso - com real afeto - foi impossível, tanto que você vê uma jovenzinha na fotografia. Num primeiro momento, cogitei que as crianças pequenas beijam sua imagem refletida porque ainda não têm consciência de que a figura espelhada é delas mesmas. Mas quem estou tentando enganar? O amor a si mesmo é algo inato que acabamos desaprendendo, provavelmente por conta da educação que nos é imposta - um efeito colateral de uma doma necessária. Contudo, penso que é possível adquirir educação e não perder - ou, conforme o caso, resgatar - o auto-amor.
Ame-se, nos dias que virão. E não confunda amor com auto-indulgência, mimo ou preguiça. Amor é bem mais exigente e compensador do que isso, como você já sabe.
Sabe Amnésia? Sabe Cidade dos Sonhos? Sabe aqueles filmes que começam quando a gente vê a última cena (portanto quando terminam) e na nossa cabeça há um efeito dominó de sentido que até então apontava numa direção mas que na verdade é outra coisa completamente diferente e a gente não sabia - e não poderia saber - porque o dado mais importante de todos, a chave do enigma, a ponta do fio da meada só foi revelado agora? E se o filme não fosse um filme, mas fosse uma parte muito importante da sua vida? E se o dado essencial lhe tivesse sido sonegado deliberadamente durante todo esse tempo? E se sem este dado a interpretação que você fazia daquilo tudo lhe tivesse custado anos de culpa, tristeza, auto-estima abaixo da crítica (levantada a muito custo), sessões e sessões de análise para elaborar em torno de algo que simplesmente não era aquilo? Hã? Ah, pois é.
Duas da manhã, roupeiro nº 2 arrumado, uma vala de 15 cm aberta no tornozelo por conta de uma mala de 30 quilos que eu «precisava» colocar no maleiro (e coloquei - diga-se), roupeiro nº 1 rearrumado, sala rearranjada, sapatos acondicionados nos devidos lugares, quadro pendurado (à martelada - sorry, vizinho). E, pffffffff, o filme ainda é um amontoado de cenas desconexas à procura de uma ordem.
Em tempo: quando eu digo que a minha vida dava um seriado da HBO (não vou nem dizer dirigido por quem), I mean it.
A despeito do que poderiam os desavisados pensarem, amor e cansaço não são incompatíveis. As pessoas cansam de amar, cansam mesmo. Cansam de amar no vácuo, no vazio, a contra-gosto, na marra, na mão única, com esforço, no amor à camiseta, cansam de amar quando amar é uma luta inglória, é uma sede saciada a conta-gotas. As pessoas cansam de nos amar apesar de nos amarem muito, as pessoas cansam de nos amar quando o amor é à custa de teimosias, defeitos, desaforos, desatenções, estupidezes, falhas de caráter, falta de tempo, descuidos, TPM, stress, chatice, drama, descaso, reclamações, egoísmo, omissões, negligências, filhadaputices, prioridades outras, grosserias, inaptidões, incapacidades, má administração, indiferença, cronograma insano, sacanagens, ingratidões, desídia, pouco caso, desconsideração, intolerância. O amor suporta muito e não espera um escambo de atenção e sentimento, mas o amor tem ida e vinda, tem mão dupla, tem uma razão outra que não é puro altruísmo e desapego. Não pense que quanto mais o outro suporta, quanto mais o outro luta, maior é o seu amor. Isso é uma sabotagem imbecil de quem não se sente merecedor ou capaz de retribuir. Pai dedicado cansa. Filho devoto cansa. Irmão parceiro cansa. Amigo de fé cansa. Até o grande amor cansa. As pessoas cansam e desamam e se perdem e vão embora e não voltam mais. Amor não é para sempre, não, não se engane. O que é para sempre é saudade. E a gente fica triste e fica infeliz e fica miserável e fica com a vida besta e vazia depois que quem nos ama desiste, a gente fica com a vida oca, fica tudo preto e branco e a gente acha que tudo bem, que vai ficar tudo bem e a gente se engana que supera, paciência, não era pra ser, não era forte o suficiente, não era verdadeiro o suficiente, mas não fica tudo bem, não supera coisa nenhuma, não era pra ser uma ova. Nananinanão, senhor. Porque a gente também cansa da tristeza e do vazio, a gente também cansa da solidão e da miséria, a gente também cansa da infelicidade, mais cedo ou mais tarde, e aí ó, babaus, já cansaram de nós. Portanto, não ponha o amor à prova. Não se proponha a testar até onde ele suporta. Amor não é gincana, não é rali, não é prova de resistência. Amor é pra amar e cuidar muito bem. Já chega o fato de que tem todo o resto do mundo para criar problema, para dar trabalho, para dificultar as coisas. Lute por e não contra. Lute muito, lute bastante. Mereça o seu amor enquanto ele ainda é seu e ainda está aqui. E que 2008 nos encontre de frente e braços abertos, cheios de coragem para amar e deixar-se ser amado.
Odeio Natal e isso é um fato. Odeio a idéia de estar celebrando com a família e pensando que, quando tiver a idade dos meus pais, não vou mais ter pais. Odeio ter um filho já crescido que decide sua vida sozinho e vai adquirindo cada vez mais autonomia, provando-me diuturnamente que não tenho mais bebê. Odeio reuniões familiares em geral, nada mais que um melting pot de todas as neuroses cuidadosamente desenvolvidas durante anos de convivência. Odeio comprar presentes para as pessoas, eu e mais trocentas criaturas que igualmente odeiam Natal (mas ainda não notaram, deixe quieto) trombando umas nas outras em lojas atopetadas, mesmo que as compras tenham sido feitas com antecedência. Odeio o anticlímax do Natal, que é a lavação de louça, arrumação de casa e milhares de pacotes de presente para colocar no lixo seco.
Odeio tudo isso e muito mais, porque me falta o desapego necessário para fruir as coisas enquanto elas são e aceitar pacificamente o seu fim, quando ele chegar. Eu esperneio antecipamente minha revolta contra a finitude, porque nasci com um defeito de fábrica: meus sentimentos são infinitos.
Você, que tem mais sabedoria e bom-senso do que eu e que consegue curtir o Natal com sua família, aproveitar a ceia e dar risada enquanto abre os presentes; você, que não vê em cada sorriso a contraface da possível perda daquele sorriso e se agarra como louco àquele momento, desejando que ele não passe, e ele sempre passa; você, que vive o agora e que tem a (invejável) consciência de que a vida é feita de uma sucessão de agoras, aceite meus realmente sinceros votos de um Natal muito feliz, com muita alegria e momentos deliciosos.
Obedecer é cumprir determinações, ordens e regulamentos porque se é obrigado a fazê-lo.
Aquiescer é cumprir determinações, ordens e regulamentos porque se concorda com eles.
Quase dá para dizer que aquiescer é obedecer de boa-fé. Não faz sentido para a ciência enquanto ciência, e isso não impede que eu perceba assim.
Desconfio que vejo o mundo pelo azimute.
Não vai mais ter The Cashmere Bouquet Chronicles até o final do ano. Porque não vou sair lendo e compilando no maior mau-humor. Não vejo o TCBC como uma obrigação. É uma aquiescência. Se você ficou frustrado, aceite minhas desculpas e sinta-se convidado para voltar e participar do nosso TCBC em 2008.
No mais, sinta-se livre para ficar furioso. Eu e praticamente toda a população dessa cidade abafada já estamos.
Finais de ano tem festas bizarras. Cervejaria XYZ terá natal com 'bebida liberada'. Fico pensando, quem é que quer ir num lugar onde tenha 'bebida liberada'? Para tomar cerveja bem quente e choca e ficar bem bêbado, junto com um monte de outros bêbados, possivelmente mais inconvenientes que você?
Às vezes o mundo parece um gigantesco programa do roedor aquele, em tempo real, non-stop.
Seis anos de relacionamento me renderam essa pérola que ora compartilho: "panetone é um bolo velho cheio de fruta velha dentro".
É tão neurastênica, essa frase. Diverte-me deveras.
Seis anos atrás, limpava a casa ouvindo Bruce Springsteen e cantando todas aquelas longas letras dele, que contam historinhas, enquanto esfregava o chão, as paredes, a roupa e tudo o mais que precisasse ser esfregado.
O Sr. Springsteen já não me dá mais o mesmo surto arrumador-limpatício de anos idos. Pelo contrário, fico numa lezeira digna de uma jibóia que engoliu um hipopótamo. Pra você ver, tem relações que realmente têm um prazo de validade. Algumas apodrecem e empesteiam tudo. Outras, simplesmente param de funcionar e viram um enorme placebão.
A questão é: quem me fará limpar a casa agora, que o Sr. Smalltown-Boy-Springsteen perdeu seu efeito higienizador?
Falando em placebos, sempre associei placebo com emplastro, provavelmente porque ambos têm a sílaba 'pla'. Mais ou menos o que me ocorria na primeira infância quanto aos nomes Débora e Bárbara: para mim, sempre soavam como um deboche dos pais, chamando as filhas de 'abóbora' - só que de uma forma bem disfarçadinha.
Mas o placebão, referido acima, fez-me pensar num superemplastro engosmelado, como aqueles bem antigos que a bisavó fazia com farinha de mandioca, água e alguma substância medicinal. Ficava uma espécie de pirão que era aplicado no doente, que deveria se submeter ao pirão-emplastro e ficar bem quietinho, esperando a cura.
(Um outro nome para emplastro é cataplasma. Você está percebendo a conspiração da sílaba 'pla'?)
Possivelmente o emplastro venha de colocar alguém em-plasta: passar uma plasta na pessoa até que ela (pessoa) fique empastelada com a plasta, portanto, emplastrada. E isso explica o efeito que a música do Sr. Springsteen agora tem sobre minha pessoa: não faz mais efeito, tornou-se um placebo, placebo do tipo emplastro, cataplasma, que faz de mim uma plasta e por isso não limpo a casa.
Não é bonito o que a educação faz pela gente? Olha quanta erudição expendida para explicar por que minha casa está um pântano-pocilga.
E a culpa toda é do Springsteen, que não faz mais efeito.
Imagine dizer isso para o 'homem médio', aquele. Considerando que o povo cada vez mais acha bárbaro (abobórico!) ir em festas de 'bebida (quente e choca) liberada' para ficar bem bebum com outros bebuns - tão inconvenientes quanto ele mesmo ou mais -, concluo que todo esse arrazoado acima deixaria o 'homem médio' pasmo. O que não duraria muito tempo: não só o sol, como disse Camus; também a bebida quente e choca mata todas as perguntas.
O que eu não precisava ter visto: propaganda do Cardermast de Natal. AAAAAAAAAAAAAAAARGH.
Só a cena do aeroporto de Love Actually pode ser pior. (Eu não acredito em coincidência).
O que eu preciso ver: O Amor nos Tempos do Cólera. Javier Bardem.
"O" homem. "O" maiúsculo e inigualável, frise-se. Que ama pra sempre, claro.
O que eu não consigo parar de ver: Brothers & Sisters.
Tô apaixonada pelo Senador. Perdidamente. Oh, god.
Há 20 anos eu pensava que 20 anos lhe fariam bem. Eu estava certa. Mas não é isso. Ele tem... errrr, aquela postura.
Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...
Sbórnia natalina ou porque é bom morar em Porto Alegre.
Você que não mora em Porto Alegre, ou não pode vir para a 21ª temporada de Tangos & Tragédias (16/01 a 02/03), pode levar os gênios da Sbórnia pra casa. Saiu o DVD do show comemorativo aos 20 anos do espetáculo. Uma coisa de delícia.
Ele deita de bruços por sobre a almofada até alcançar a cabeça no meu colo. O corpo estirado ocupa todo o espaço do sofá largo de três-lugares-e-meio. Ele sorri, o rosto já bem mais alongado, o maxilar dando mostras de que se alargará num quadrado imperfeito e harmonioso. As pernas são compridas, longilíneas. O corpo todo é. Um filhote de girafa. Um filhote de girafa quase adulto.
Ele levanta o rosto, sorri e me beija. Há uma sombra sobre seus lábios. Há um suave, porém onipresente, oleoso e conhecido cheiro hormonal que permeia sua pele e cabelos. É o cheiro que têm os homens jovens e saudáveis na plenitude do seu vigor. O vigor começa a se insinuar naquela pele tenra, na constituição ainda meio infantil. Ele mal pode esperar e eu sei disso. Foi ontem, vinte anos atrás. Por fim, ele me abraça, ri alto e me escapa por entre os dedos. Fica a reminiscência do seu novo aroma de macho novo e o brilho da sua risada ecoando nos ouvidos. Meus braços estão novamente vazios. O som é alegre.
Come to me, Cosette, the light is fading
Don't you see the evening star appearing?
Come to me, and rest against my shoulder
How fast the minutes fly away and every minute colder
Hurry near, another day is dying
Don't you hear, the winter wind is crying?
There's a darkness which comes without a warning
But I will sing you lullabies and wake you in the morning
Hoje faz aniversário Letícia, a castelhana. É das minhas irmãs nascidas de outra mãe, sagitariana até o último fio de cabelo, ou seja, daquelas gentes que vibram com a vida dois tons acima (onde precisamente a vida deve ser levada). Não é à toa que ela me diz as coisas mais certas (e às vezes mais duras) sobre mim mesma e também é com ela que eu me sinto mais humana. Acho que é porque a Lê é tão forte quanto é frágil (e disso ninguém desconfia - menos eu, claro, que também sou assim).
Parabéns, negrita. Que sigamos as duas. Que eu continue tendo a tua riqueza por perto.
Aqui do meu cantinho, onde passei praticamente o dia todo e de onde só saí para ir a uma churrascaria onde tem coca cola em garrafinha de vidro com Facelo e Cris, bem rapidinho, neste domingo cinza e frio com direito a Hildolina preguicenta, edredons, acordar tarde, café gostoso, Häagen-Dazs, uns livros, algum trabalho em dia, uns CDs, uns filminhos bons, um episódio ou outro reprisado de série que eu gosto, telefone quieto, alguma lágrima lá que outra, travesseiros fofos, um passarinho novo da Carol W. dependurado no lustre, um incenso gostoso de fruits confits, um banho de calda de pêssego com mel e uma cerveja gelada, e considerando que daqui a exatos 3 meses eu completo 35 anos, tenho a declarar que estou muito bem, obrigada.
Mega ultra super uber triple thunder extra depressão pós zapping.
Someone like you. Com direito a Ashley Judd e Hugh Jackman (mais Van Morrison na trilha sonora).
Porque mais uma vez a minha vida pára naquela parte do filme a 20 min antes do final. Merece uma tese de doutorado.
Pra dormir inchada de taaaaaaaaaaaaaanto chorar.
Aula matada, massa cabelinho de anjo com manteiga e grana padano, uma taça generosa de vinho e House.
Porque afinal a gente precisa recuperar a fé na (minha própria) humanidade de alguma forma.
a fome de um ouro sobre o qual repousa a água
sob meus pés, o chão frio da casa,
dentro dos meus olhos, a luz indisível
do tempo. em minha boca, a sede esquecida,
morta, ressuscita.tempo agudo,
este de paredes instáveis,
tempo de perder a paz costurada
no silêncio da carne. Esqueço
minhas mãos, esqueço o aramado
do corpo e desvanesço, novelo líqüido,
enquanto a casa esboça
portas e janelas que não se abrem.
resto em poças
no pátio que desinexiste.
Enquanto isso, em Satolep, Mme. Irmã é aprovada no vestibular para Psicologia em TERCEIRO lugar. Agora não bastasse irmã pós-graduada, tô em vias de arrumar uma bi-graduada E psi. Vai vendo. Depois eu digo que o melhor que Monsieur Pai e Mme. Mãe fizeram por mim foi me darem irmãos e acham que eu exagero.
Isa, a Dora, a Mme Enteada, mudou-se de mala, cuia e livros pré-vestibulares para a capital. Precisamos MUITO fazer uma coisa polenta/galinha com molho na mansão dos Antoniete Ferreira para comemorar o up-grade.
E a Mme. Escrava não pode adiantar o feriado natalino porque só obterá habeas corpus do tronco às 14 horas do dia 24. Vai de busão para Satolep fazer ceia fast-food para a família. Supõe-se que a bi-graduada vai ser promovida de auxiliar de cozinha para chef substituta. Estudo, meus filhos, tem que servir pra alguma coisa.
O guarda-roupa nº 2 (o quê? vocês pensaram que era só unzinho? magina!) só chega para os festejos do ano novo. Meanwhile, as roupitchas de madame são acondicionadas em três malas-conteiners empilhadas pelas quais Hildolina está perdidamente apaixonada.
A nova padronagem aquela lá em cima se deve a uma reação alérgica de nome impronunciável, mas que é algo tipo #$%&*+"~ rósea. Rósea, veja bem. Quando eu decido as coisas eu decido mesmo.
Toda quarta-feira será oferecida uma crônica eleita entre as prediletas da Criada para leitura e regozijo dos amigos de Madame.
Preferir-se-ão crônicas inéditas de autores que divulgam pela internet. A autoria será sempre divulgada e, havendo site para redirecionamento, esse será fornecido.
Não vou mais tentar me convencer do que os outros querem que eu me convença ou do que os outros julgam que seja o melhor, o mais adequado, o recomendável. Eu não me convenço de nada; eu sei e sinto. E mudo de idéia quando me der na telha, a propósito.
Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?
Tem coisas que eu quero muito e não sei bem como elas se materializariam se acontecessem. Não consigo nem de longe prever a logística. Também tô pouco me importando. Se é algo que eu quero muito, se acontecer, eu dou um jeito (nem que seja reorganizando todo o resto). O nome disso é estar vivo e manter a capacidade de viver, com todas as suas melhores e mais drásticas conseqüências.
Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.
É bem verdade que tentar é arriscar a dar tudo errado. Em compensação, tentar também é arriscar a dar tudo muito mais certo do que já deu até aqui. Entre a tentativa e a resignação, há o que se construiu de si mesmo e a confiança que se tem de que se pode fazer ainda melhor (e que se merece mais). É precisamente o caso.
Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso o meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.
(Hilda Hilst, Júbilo, Memória e Noviciado da Paixão.)
Não vou desistir. Nem hoje, nem amanhã, nem depois de depois de amanhã. Porque eu sei. Dentro da cabeça, em cada neuroninho, em cada célula, em cada terminação nervosa. Eu sei até o osso. Eu soube desde o instante zero e por mais que eu tenha pensado e repensado e meditado e sopesado, eu nunca tive dúvida. Eu sei que é isso. E que isso é o começo do que eu posso fazer. Não vou desistir.
Minha casa está um pântano. Quem já andou por esse blog está familiarizado com o problema que venho tendo com o local. Bem, pensei, vou resolver esse problema. E procedendo assim, como sói acontecer, criei um problema ainda maior. Como a hidra (ou outro bicho mitológico aproveitado nos videogames atuais), que você corta uma cabeça e nascem umas dez no lugar. Explico: a minha bagunça é solidamente compactada e estratificada, como arquivos zipados. A criatura olha e pensa que nem vai demorar tanto assim, afinal, é só aquilo ali, e abre a caixa de pandora do caos, de onde pula um hediondo cipoal de bagunça, cuja descompactação, uma vez iniciada, é impossível parar.
Há dois gatos. Gatos perdem pêlo no verão. A bagunça se mistura com os pêlos dos gatos e fica tudo uma imundície sem fim. Os gatos, desconsolados com minha ausência, esfregam-se todos em absolutamente qualquer peça de roupa, deixando-a 100% peluda. Os gatos, deprimidos com a bagunça, deitam-se por sobre ela e brincam com as coisas espalhadas, espalhando-as ainda mais.
Quer conhecer o temperamento de uma pessoa que tem animal de estimação? Observe o comportamento da mascote. Nada mais a declarar.
(ainda não me esfrego nas roupas para deixá-las peludas. mas quem sabe.)
Soma-se a isso a questão da geladeira. A geladeira já não pode ficar mais tão sortida. Porque uma geladeira deliciosamente sortida equivale a um corpo engorduradamente rolição. Então o sortimento da geladeira caiu drasticamente. A qualidade do sortimento também mudou bastante, é importante esclarecer. Acrescente-se que a casa abriga (a cada vez intervalos de tempo menores) um adolescente. O adolescente, embora esguio e musculoso (obrigada pela dádiva ó ser supremo) come como um animal - domesticado - que tenha ficado perdido na selva por dois dias sem água ou comida. Portanto, temos geladeira com sortimento precário + adolescente que come até o pé da mesa. O resultado dessa conta é um apoio inesperado à mudança dos meus hábitos alimentares - algo como 'desabitue-se a alimentar-se', eu diria.
Estive com o aludido adolescente numa sessão de cinema para assistir Beowulf. Como de hábito nessas historinhas épicas, o que me comove e intriga é a retidão de caráter dos personagens secundários em comparação com a fanfarronice e prepotência dos personagens principais. De onde me brota uma teoria de que a força está no lado inverso de onde a vemos. Quase como um vetor em sentido contrário, igual em módulo. A pessoa famosa, que brilha, alardeia e chama atenção, procede assim porque não pode viver sem o olhar alheio. A pessoa que almeja ser famosa confirma a sua existência através do olhar do outro. Olha nos olhos do outro, não para vê-lo, e sim para ver sua própria imagem refletida. Já a pessoa não-famosa, que não chama atenção, não brilha, não alardeia *E* convive diretamente com o ser estelar, é quase que um suporte vital da referida pessoa famosa. A pessoa não-famosa (e tranqüila com seu estado anônimo, é importante frisar) quase sempre quer coisas mais simples e menos grandiosas, mas que, para ela, soam como muitíssimo mais importantes. Esse tipo de pessoa não-famosa, a não-famosa e feliz no seu anonimato, é o anteparo que a pessoa famosa precisa para confirmar sua existência e validar os conceitos que procurou atribuir a si mesma ao longo da vida. Porque esse tipo de pessoa não-famosa deseja outras coisas que não o reconhecimento almejado pela pessoa famosa e, exatamente por isso, pode prestá-lo de forma desinteressada (leia-se "sem inveja").
Onde isso me leva? Sou uma não-famosa feliz no meu anonimato.
Isso não me faz melhor do que ninguém. Isso só significa que sou bastante acomodada e um pouco patetinha.
E que posso viver com pouco, bem pouquinho. Deve ser por isso que meu metabolismo anda tão lento.
Para um metabolismo lento, até que um frigobar está de bom tamanho.
O problema é quando você descobre que a sua fome é de geladeira. E bem sortida.
"Realmente, isso de adquirir um armário a essa altura do compeonato, e tudo que tal aquisição acarreta (especialmente o desarrumar as prateleiras, esvaziar as gavetas, descartar - ou não - roupas que já te abrigaram, e hoje não o fazem mais, e depois rearrumar tudo de um novo jeito, em uma nova embalagem, numa organização totalmente nova)... É, isso realmente dá pano pras mangas... E não estou falando do trabalho braçal, mas no sentido metafórico, psicológico!
É, você tem razão, esse é um trabalho para o quarteto fantástico - Freud, Jung, Lacan, e um Nietzschezinho pra arrematar... Hehehehe
Eu poderia explicar da onde vem o "Sorry, periferia". Poderia contar quem é Ibrahim Sued e tentar explicar o que era o humor deste jornalista genial. Também poderia dizer quem sou eu, as minhas convicções, origens, etc. Mas eu estaria dando asa pra cobra e explicação a gente dá pra guarda e pra juiz - mais uma do Ibrahim. Quem veio reclamar do post abaixo - especificamente do que poderia ser a carga preconceituosa do Sorry, periferia - ou é porque veio parar aqui pela primeira vez googleando "c*rinthians", doido pra ter a quem insultar, incomodar, se justificar e essas coisas que aqueles que "amam" futebol fazem, ou nunca tinha vindo aqui antes e quis dar uma de baluarte do politicamente correto. Não devem estar nada familiarizados com quem somos e o que a gente costuma escrever aqui no blog, com a maneira que temos de lidar com as vitórias e as derrotas dos nossos times que, sim, são só times e que são diversão e são para divertir. Eu não sei o que é brigar por causa de futebol. Sei o que é rir dos outros e de mim mesma e sei principalmente o que é torcer e me emocionar. Não consigo entender aqueles que vão ao estádio e se matam, brigam, destróem tudo por onde passam. Não compreendo. Devem ter esses um gene estranho aos meus, ou uma necessidade qualquer que eu não tenho. Não entendo. Nem os do meu time, nem os dos outros times. Talvez eles também não me compreendam. Não compreendam o que é rir de si mesmo na hora da adversidade, nem saibam o que é se divertir com futebol. Não tenho esperança também que saibam quem foi ou um dia venham a entender o Ibrahim Sued. Não são gente que eu queira por perto, a meu lado ou lendo o que eu escrevo. Portanto, mais uma vez, não vou explicar. Gastem sua raiva reprimida excedente em algum outro lugar. Aqui não vai ter bate-boca. Sorry, periferia.
Só uma outra pessoa gosta mais de rotina do que eu: Hildolina. Agora ela sabe que a gente acorda, faz xixi, limpamos sua bandeja, damos sua comida, fazemos o chimarrão, ficamos meia hora no computador e depois nos mudamos para a mesa de estudos, onde ela pode deitar sobre as minhas pernas durante 4 horas. Acontece que se tem um e-mail a mais pra responder, ou se as notícias do STJ ou STF estão mais interessantes, ela briga comigo (miados, primeiro, depois violência física) para que eu vá logo para a mesa servir de colchão pra ela. É uma grande incentivadora dos meus estudos - mesmo que por motivos egoístas.
"I'm going your way - Two drifters, off to see the world, there's such a lot of world to see..."
Ai, meu pai, por que cada vez que eu ouço essa música, eu ouço um detalhe novo? Póin.
Tem gente que é pra sempre. Nas pequenas coisinhas, nas grandes coisonas, nas referências de vida, nos silêncios. Tem gente que a gente gosta de sentar e rir, tem gente que a gente gosta de falar e de ouvir, tem gente que a gente gosta de olhar. A Gláucia Margarida é assim. Eu gosto disso tudo. E se não fosse o suficiente, quando a gente precisa dela, ela ajuda sem a gente perceber, sem que isso apareça, quase parecendo por acaso, o que, convenhamos, para quem não sabe pedir ajuda (nem aceitar) é uma bênção do céu.
Parabéns, Margarida. Por seres todas essas gentes, por seres cada vez mais gentes, por nos deixar te ver se reinventando. E, claro, por ter posto a Clara Lua no mundo.
Aqui entre nós, no apagar das luzes do domingo, a pessoa espiando o Fantástico, o que é a gostosice do Sting no show em Buenos Aires, plamãedoguarda? Cinqüenta e seis anos, meus filhos, cinqüenta e seis anos, corpaço, sotacaço britânico maravelololololoso cantando Massage in a botle. Benzadeuso.
Aqui dá pra ter uma idéia da forma física do senhor este.
(E olha, se tem botox, tá bem feitinho).