18.10.2007

delírios febris - um post atrasado

Tomei vacina contra rubéola. Para quem não sabe, este estado ao extremo sul do país está em vias de epidemia de rubéola. Como estou pegando todas as doenças possíveis e impossíveis, achei por bem prevenir e vacinar. Ha. Por mais que os virii estejam atenuados, nocauteados, exorcizados e desmaiados, *eu* estou mais atenuada, nocauteada, exorcizada e desmaiada ainda. Resultado: surto de febre de 40ºC, dores incríveis pelo corpo e uma sensação de bad bad thursday que durou todo o feriadão.



Nem ao menos dá para colocar figurinhas nesse pÔuste, porque o treco gerenciador diz que meu ticket é inválido ou expirado.

Inválida *e* expirada é essa que vos escreve, amigão. O ticket, coitado, não tem nada a ver com isso.



She's got no ticket to ride. And she doesn't care.



O olhar brabo da genitora e o conselho seco que veio em seguida causou um Efeitcho Viramundos. Taí eu, ó, fazendo exatamente o que ela falou, e nem foi por que ela falou. Foi pelo tremendo mal-estar que me causou a combinação olhar brabo + conselho seco, vindo precisamente d'A Genitora.

Tá vendo, a mão que balança o berço é a mão que governa o mundo. Mas dá um trabalho...



No fundo, no fundo, no fundinhoinhoinho, não passamos de uma cambada de filhos da mãe. Tudo olhando pra cima de bico aberto, esperando o feeding da mãe. Um feedbackzinho bonzinho que seja, mesmo um falso positivo, por favor, mãe, diga que gosta de mim de um jeito que eu consiga acreditar.


Olho no espelho e fico pensando no que me tornei. E suspiro meio aliviada (só meio) porque me tornei o que me tornei e não o que me tornaram, ou tornariam, se eu deixasse.


Para algumas mães deviam dar, na maternidade, junto com o filho e as pulseirinhas identificadoras, um capuz de carrasco.


Para alguns pais, deviam dar dois capuzes de carrasco. Já que eles provavelmente perderão o primeiro (homens perdem tudo e depois andam pela casa pedindo 'fulana, você viu meu não-sei-quê?') e cometerão a suprema crueldade de carrasquear seu filho sem o capuz.


Você vai dizer, quem ela pensa que é, para escrever isso? Sou o que fiz de mim mesma + vários anos de terapia, eis o mistério da fé, amiguinhos. Todo um esforço para dar nomes aos bois, principalmente àqueles bois inomináveis que você preferia passar a vida sem saber que existem. E cuja existência explica enxaqueca, obesidade mórbida, contraturas musculares, taquicardia, dermatite atópica, herpes, males hepáticos e toda sorte de idiossincrasias resultantes da somatização.



Agora: saber que o boi existe e que tem um nome é uma coisa. Outra coisa é descobrir como abater e carnear esse boi. Logo, dar nome aos bois é só o começo do trabalho. Aí, você chama o boi pelo nome e ficam os dois se olhando, sem saber o que fazer, por tempos e tempos. O boi cansa tanto de ser olhado que até senta e fica ali, ruminando e olhando para você.

Ainda bem que é você que dá nome ao boi, e não o boi que lhe dá o nome. Não é mesmo?



Dizem que a estrutura do conhecimento é uma espiral. Taí numa dessas teorias do ensino e da aquisição do conhecimento. Só sei disso porque me explicaram num ano em que a Feira do Livro teve uma espiral no seu logotipo e fiquei pensando (alto) o que uma espiral tinha a ver com livros. Espiral lembra sorvete, caderno, echarpe, pirulito, bala, maquiagem, peça para motor de carro, mas nunca livro. O livro é uma coisa anti-espiral. Quem diria que o conteúdo do livro serve para alimentar uma espiral ainda mais importante e intangível.

Quer dizer, depende do livro. Coelhos, surfistas e pais ricos que mexem em queijos à parte. Faz favor.



Agora que já delirei um centésimo do meu delírio febril pós-febrão em alto e bom som aqui chez Madame, vou dormir.

Bom dia.

logo
Coluna: Criada de Madame
por Sua Criada, às 00:44 de 18.10.2007
comentários (16)