27.09.2006

CHEGA DE BELEZA

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.

Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.

Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.

Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Amor Feinho, Adélia Prado
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Coluna: Criada de Madame
por Sua Criada, às 16:47 de 27.09.2006
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Tudo. Nada.

Nunca a minha vida esteve tão longe e tão irreconciliável com o que eu gostaria que ela fosse. Nunca eu tinha olhado pra minha vida e tido tanta vontade de que ela fosse outra coisa. Nunca eu desejei tanto que absolutamente tudo fosse diferente. Nunca eu me senti tão triste e tão sem vontade de viver a vida que eu tenho. E parece ingrato, mimado e leviano dizer isso. E ter vergonha de sentir e de dizer ainda piora tudo.

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Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 14:55 de 27.09.2006
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Just do it.

Papai Noel não existe. Tampouco coelhinho da Páscoa. Assim, não adianta se comportar bem para ganhar brinquedo e ovos de presente. A distribuição é aleatória e injusta e não tem PROCON pra isso.

Da mesma forma não adianta entregar nas mãos de Deus, do destino ou do acaso. Esses seres imaginários são tão ou mais perigosos para fins de consolo e atitudes do que os meliantes dantes referidos. Tudo da mesma gang de ficção inventada para deixar tudo como está pra ver como é que fica enquanto quem se atenta corre na frente e pega o melhor pedaço do bolo. Aquilo de dizer que se for pra ser será, que o que é seu está guardado e que se ainda não deu certo é porque ainda não chegou no fim, é igualmente balela.

Acreditar nessas coisas só tem dois efeitos: 1) no Natal e/ou na Páscoa a gente vê as outras criaturas ganhando muito mais e fica tentando achar o que afinal fez de errado (e se culpa e se escabela e se acha desmerecedor); 2) a gente passa a vida esperando um trem que pode nem passar na nossa estação e quando vê, nem perna pra subir em trem tem mais.

Conselho: Compre seu brinquedo, adquira seus ovos e faça seu próprio acaso. Não tem erro. É mais difícil, claro. Se o sabor do ovo, o modelo do brinquedo ou o resultado do "acaso" não forem os esperados, não tem ninguém pra reclamar. Mas antes também não tinha, né? Ou você acha que se consolar dizendo "não era pra ser" ou "eu não merecia mesmo" traz algum alívio no meio da infelicidade?

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Coluna: Madame Satã
por Ticcia, às 11:12 de 27.09.2006
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Dormindo com o inimigo.

(JAIME VAZ BRASIL in Zero Hora, 17.09.2006)

Até o momento, os indícios são de que o coronel Ubiratan Guimarães foi assassinado por sua ex-namorada. Situação rara, o homem vítima de crime passional. O contrário chega a ser tão corriqueiro, que pode até não dar notícia. Mas os números assustam: são mais de 2,5 mil mulheres mortas no Brasil, por ano, vitimadas por seus companheiros ou ex-companheiros. Mais de sete casos por dia. E a estatística contempla apenas casos comprovados.

Em que pese uma duvidosa paixão (do grego pathos: doença, sofrimento), a passionalidade da maioria desses crimes é premeditada e não deriva apenas - como se poderia pensar - de uma forte emoção momentânea. O homicida passional é geralmente narcisista. A raiz narc significa sono. Daí as palavras narcóticos e narcolepsia, por exemplo. Assim, o narcisista está enamorado de si e também "adormecido em si mesmo". Ao criar o próprio mundo fantasioso (sono para ele, pesadelo para ela), os regramentos desse mundo-umbigo trazem à tona o egocentrismo e os núcleos paranóides, expressos através do ciúme e condutas controladoras.

O perfil geralmente é de um homem com mais de 30 anos, ciumento ao extremo, possessivo e vaidoso. Não raro, está unido a uma mulher mais jovem. Se a paixão pode levar ao crime, é preciso entendê-la como a paixão-doença propriamente dita, com a carga de sofrimento inerente. (Lembremos que a paixão de Cristo significa o seu martírio.) Quando o potencial agressor se sente infidelizado ou abandonado, pouco importará se a infidelidade realmente aconteceu. Do mesmo modo que pensar-se apaixonado é o mesmo que estar apaixonado, pelo menos em atitudes.

O sentimento de abandono que é gerado pela separação pode, nesses caldos de cultura, ocasionar um movimento regressivo do psiquismo. Ou seja: o comportamento volta a ser regido com batutas de primeira infância, onde adormecer no colo da mãe representa - em tese - a maior das seguranças. Mas é exatamente lá que o abandono ilusório arma a trama e a cama do pesadelo: o bebê, ao não ver o rosto da mãe (ou cuidador) no seu campo visual, tende a ler isso como um abandono, pois não possui instrumentos psíquicos para compreender que o mundo existe além do que enxerga. Por isso, cria o seu próprio. E também com suas leis de sobrevivência, pois o bebê humano, se realmente abandonado, não sobrevive. A regressão do homicida chega a esse berço pré-verbal, e ali estende o lençol. Recria o mundo onde abandono e aniquilamento viram sinônimos. A sensação de ser destruído pelo abandonante está intimamente ligada aos crimes passionais. Assim, as reações às pequenas frustrações do cotidiano pode ser um preditor, como em uma regra de três: reagindo de tal forma em uma situação cotidiana simples, como agirá frente a um estressor real e maior?

Os homens agressivos e com maior ou menor potencial homicida costumam dar sinais deste comportamento com certa antecedência. Desde adolescentes. Por exemplo: um jovem acostumado a gritar com a própria mãe, como tratará a futura esposa? No mínimo, repetirá a conduta.

O aspecto machista não pode ser desconsiderado. Vale a lembrança de que Doca Street foi praticamente absolvido em seu primeiro julgamento (1979) e saiu do tribunal sob aplausos, pois a absurda tese da "legítima defesa da honra" saiu vencedora. Felizmente, pela última vez: a partir daquele caso esse tipo de tese não vingou mais. (E, no segundo julgamento, foi condenado.)

Ao contrário das mulheres das classes mais pobres, as de classe média ou alta não costumam acorrer na mesma proporção à delegacia da mulher, por dupla vergonha. Nisso, o fator financeiro também conta no par dominante-dominado: mulheres independentes tendem a tolerar menos as condutas agressivas e o ciúme exagerado.

Se, por um lado, o termo ciúme deriva de zelus, zelumen (zelo em si, cuidado), há que colocá-lo em um gradiente de quantidade. Como o fogo, pode ser muito útil ao homem, desde que na dose certa e com nosso controle sobre ele. Se o fogo assume o comando, o resultado é desastroso. O elemento é o mesmo, mas incêndio sempre é trágico, pois saímos de controladores para controlados.

Quando a mulher se encontra ameaçada pelo parceiro, não deve esperar passivamente que os atos agressivos se repitam. A cronicidade dos comportamentos violentos aumenta a chance de algo maior, ali adiante. É um indicador forte. Especialmente se acompanhado de ciúme exagerado e consumo de bebidas alcoólicas. Esse trio de fatores é de tirar o sono. Contudo, melhor perder o sono hoje do que a vida amanhã.



Queridos e queridas, ler este texto lindo do Jaime com MUITA atenção. A coisa é muito mais comum do que a gente pensa.

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Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 10:41 de 27.09.2006
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