21.07.2006

BOM FIM DE SEMANA.



logo
Coluna: Conversa de Madame
por Ticcia, às 20:04 de 21.07.2006
comentários (13)

Sísifo.

Acho que o pior que eu posso sentir é sensação de impotência. Isso de não poder fazer nada, de não haver o que se possa mudar ou alterar ou influir. Terrível. Deve ser por isso que a idéia de morte me apavora tanto. Também por isso a dificuldade de esperar o tempo do outro, sobre a qual a única possível atitude é a desistência prematura, que é um aborto, mas é uma atitude própria possível e de resultado imediato. Melhor "não" já, que a espera pela dúvida. Será? Não, possivelmente não. O melhor é o aprendizado do tempo e o exercício de entender que há coisas além da nossa influência e possibilidade. Mas que exercício.
logo
Coluna: Madame Benvenisti
por Ticcia, às 11:56 de 21.07.2006
comentários (19)

Pra ti, n.º 1.


Chagall
I.
Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
e os beiços eram negros e orvalhados
uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.


(H.Hilst)

logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:08 de 21.07.2006
comentários (12)

Pra ti, n.º 2.


Chagall
II.
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível?

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
o toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis ?
Como te amar, sem nunca merecer?


(H.Hilst)

logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:08 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 3.


Chagall



III.
Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria.
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de asperezas.
Vem com brilhos de dor e madrepérola.
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos, vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente e nos habita.


(H.Hilst)




logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:08 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 4.


Chagall




IV.

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas ?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda VIDA.
E se te digo que estavas ao meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido.
Dirás que menti ? Mas não. Alguém gritava:
Palavras ... apenas sons e areias. Acorda
Acorda vida.


(H.Hilst)


logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:08 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 5.


Chagall







V.
Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscaras, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.


(H.Hilst)







logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentários (2)

Pra ti, n.º 6.


Chagall



VI.
O que é a carne ? o que é este Isso
que recobre o osso
este novelo liso e convulso
esta desordem de prazer e atrito
este caos de dor sobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.
O que é o osso ? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.


(H.Hilst)




logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 7.


Chagall



VII.
Dunas e cabras. E minha alma voltada
Para o fosco profundo da Tua cara
Passeio meu caminho de pedra, leite e pêlo.
Sou isto: um alguém-nada que te busca.
Um casco. Um cheiro. Esvazia-me de perguntas.
De roteiro. Que eu apenas suba.


(H.Hilst)




logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 8.


Chagall




VIII.
costuro o infinito sobre o peito
e no entanto sou água fugidia e amarga
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível.
Costuro o infinito sobre o peito.
Como aqueles que amam.


(H.Hilst)





logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 9.


Chagall






IX.
Penso linhos e ungüentos
Para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los
(e de te ver ali
à luz da geometria de teus atos.)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa.
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.


(H.Hilst)








logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentar (0)

Pra ti, n.º 10.


Chagall



X.
Que te demores, que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.

Que te demores
Cobrindo-me de sumos e tintas
Na minha noite de fomes
Reflete-me. Sou teu destino e poente.
Dorme.


(H.Hilst)





logo
Coluna: Madame Tussaud
por Ticcia, às 10:07 de 21.07.2006
comentários (2)